Serões na minha terra
06/08/2026SERÕES NA MINHA TERRA
APRESENTAÇÃO
Há terras onde o tempo não corre em linha recta, mas em espirais de fumo que sobem das lareiras. É nesse regaço de penumbra e memória que nascem os Serões na minha terra: uma teia de contos desgarrados, entre o mito ancestral, a lenda murmurada, a crença fervorosa e o medo antigo que, por graça ou acaso, se fez milagre. Sem a amarra da cronologia, cada serão acende uma lâmpada própria e cada história reivindica o seu chão, num diálogo visceral entre a narrativa e a geografia que a viu nascer.
A conduzir este tear de palavras surge António Costa, o “Titóino”, homem intemporal, de sabedoria vasta e olhar denso de quem viveu muitas vidas: ex-professor, ensaísta, historiador, poeta e cronista dos dias. O Titóino é a própria encarnação do encanto, um contador de histórias puro que carrega no tom de voz a autoridade suave dos sábios e a perplexidade curiosa dos poetas.
Se na mítica Pérsia de As Mil e Uma Noites a jovem Xerazade desfiava contos na alcova do rei para salvar a própria vida, protelando a alvorada com o feitiço da sua voz, aqui o Titóino fia a palavra para salvar algo igualmente sagrado: o encanto da memória. A sua única urgência é evitar que o silêncio ganhe poeira, pois sabe que, no dia em que a última história se apagar, apagar-se-á também a luz do mundo que ele habitou.
A relação do narrador com o espaço repercute o enigma de As Meninas, de Velázquez. Tal como no célebre quadro os reis surgem apenas como um reflexo subtil num espelho ao fundo, também o Titóino não se limita a descrever a paisagem: ele vê-se reflectido na pedra, no adro, no cruzamento de caminhos e na sombra de cada serão. Cada local é o seu espelho; cada narrativa, a sua imagem revelada. Por isso, enquanto houver um canto de terra por cantar, haverá sempre mais uma história por transmitir, num ciclo infinito onde o narrador, o lugar e a lenda se tornam uma e a mesma coisa.
Alenquer, 6 de Agosto de 2026
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