Um Canto à Memória
30/01/2026Um Canto à Memória
Faz hoje 452 anos que Damião de Goes faleceu nesta vila de Alenquer, depois de acusado, preso e condenado pelo Santo Ofício. Quando se lembrava o 448º aniversário de sua prisão escrevi um pequeno texto, aqui publicado neste meu espaço web, e que agora é exposto num poema em decassílabos épicos ao modo camoniano.
Aquele meu texto “Damião de Goes foi preso pelo Santo Ofício: faz hoje 448 anos” oferece um retrato detalhado da traição e do martírio de que foi vítima Damião de Goes. A sua tragédia é rica em temas camonianos: o desterro, a injustiça, a perseguição religiosa e a fragilidade da glória humana, o que me permitiu compor uma obra que evoca o estilo de Camões, utilizando a sua métrica decassilábica.
Assim, adotei um tom épico-trágico e erudito-melancólico, com apelos à justiça, à liberdade do espírito, e à crítica implícita à hipocrisia dos poderosos.
Alenquer, 30 de janeiro de 2026
I
Ó lusa Musa, ergue a voz sagrada,
Que o Tempo quis calar com vil temor;
Do peito ousado que ousou, sem ter espada,
Falar de reis sem lisonja ou favor.
Foi Goes, homem de mente iluminada,
Que à verdade serviu com raro ardor;
E por tal zelo à História e à razão,
Caiu nas mãos da negra Inquisição.
II
Nas lides altas do saber profundo,
Por Pádua andou de espírito elevado;
E em lutas graves da doutrina e mundo,
Louvou quem Roma já tinha negado.
Por isso, o ódio, em pérfido segundo,
De um falso amigo, outrora seu aliado,
Simão cruel, de zelo se adornou,
E o nome honrado às chamas entregou.
III
Disse o jesuíta: “Ouvi heresia,
Louvores a Lutero e seus caminhos;
Falava como Erasmo — ousadia! —
Trazendo saberes, línguas, vizinhos!”
E mais rancor na língua lhe escorria:
Que com Grineus, herege entre mesquinhos,
Tratara, e — céus! — que em dia de jejum,
Comeu da carne, sem temor nenhum.
IV
Três vezes a denúncia vil foi ouvida,
Contra o poeta íntegro e leal;
O tempo a foi levando em sua vida,
Sem que o fado erguera o seu sinal.
Mas veio a Crónica, em voz erguida,
Sem vã bajulação ao mando senhorial;
E nela a verdade, em exposição,
Mostrou da intriga a pérfida intenção.
V
Não louvou Cardeal com vil bajula,
Nem Bragança exaltou com falsa glória;
Aos cristãos da Etiópia deu a bula
Da luz e graça viva na memória.
Por isso o prenderam, sem partícula,
Com ímproba ânsia e pérfida vitória.
Ó século cruel, de mente escura,
Que o sábio faz em trapo e desventura!
VI
Preso ficou, que a má fortuna nega
A paz do bem, liberta de qualquer dano;
E o cárcere em Batalha se lhe entrega,
Em pedra fria, em sono não humano.
Até o genro, a lealdade cega,
Contra ele ergueu o braço desumano;
E a fama, que foi sua, em falsidade,
Caiu no fosso vil da iniquidade.
VII
Em Batalha cumpriu dura sentença
Nas trevas sem compaixão nem calor;
E ali, sofrendo a dor sem recompensa
Voltou depois a Alenquer, sem vigor.
Em 30 de janeiro, sem presença,
Findou a vida sem honras, sem louvor;
Mas sua pena vive, e seu clarão
Brilha mais alto que a condenação.
VIII
Memória eterna ao seu sofrer profundo,
Que por saber e verdade foi vencido;
Mas nunca a alma o deixou neste mundo,
Pois vive em cada livro repartido.
Portugal, se esqueceres teu segundo,
Serás de novo em sono adormecido;
E em cada abril que Goes lembrará,
Tua vergonha então renascerá.
Segundo o texto Damião de Goes foi preso pelo Santo Oficio faz hoje 448 anos
Alenquer, 30 de janeiro de 2026
Ok. Obrigado pela sua bondade.
Hernani de Lemos Figueiredo