Canto ao Autor
08/10/2025Canto ao Autor
I
Que importa a voz que fala ou se silencia,
Se o texto corre além do seu autor?
O nome é sombra, é nada, é aparência fria,
A letra vive mais que o seu criador.
Assim Beckett pergunta, em sã magia,
Se o autor morre, ou sente o seu fulgor:
Não é o vulto o dono da escritura,
Mas sim o verbo, em luz e em ternura.
II
E pergunto-me a mim: quem sou, de fato?
Sou narrador, cronista ou sonhador?
Historiador que ergue o seu relato?
Ou mero ilusionista encantador?
Qual é meu estilo? É firme, ou é abstrato?
Sou turbilhão que nega todo o autor?
Sou miríade de ecos e de vozes,
Que se confundem em rios tão velozes?
III
Se escrevo, logo existo — eis meu enredo,
Paródia de Descartes e de sua lida;
Do eu não sei, senão do seu segredo,
Um espectro que insiste e não se finda.
Sou muitos eus, num só que jaz em medo,
Labirinto de sombra reunida.
O que sou? Nem o verbo me declara:
Se escrevo, sou; calado, o ser se para.
IV
E diz Foucault: o autor é já defunto,
Morto no ato mesmo em que é lembrado.
No jogo da escrita só há seu ponto,
Presença ausente, corpo já velado.
É Xerazade a fiar o seu assunto,
Mil noites fala, e ao fim é proclamado;
Cada palavra alonga-lhe a vida,
Mas quando cessa, a lâmina é movida.
V
Se o autor morre, o que resta do leitor,
Senhor do texto, dono da razão.
É quem lhe dá sentido e novo ardor,
É quem governa o verbo em expansão.
O autor se apaga e deixa só o fulgor,
E o texto arde em plena combustão;
Quem lê é rei, herdeiro da coroa,
E o nome some, e a letra ainda ecoa.
VI
Eu escrevo e fujo ao verbo que me chama,
Apago o traço, a voz, o meu perfil;
Morrendo vou na própria e vã proclama,
Que em mim se extingue o sopro juvenil.
Do verbo nasce o fogo que me inflama,
E nele ardo, espectro sutil.
Sou sombra a consumar-se em vã memória,
Morro em papel, ao dar-me em minha história.
VII
Mas como estar ausente e presente,
No mesmo espaço, em sombra confundida?
A escrita é chama, eterna e ardente,
Mas é também mortal e consumida.
No jogo da visão, o que se sente
Não cabe nunca em página vertida;
E por mais que em metáforas se encerre,
O olhar não se confunde com quem escreve.
VIII
Construo o texto, e nele se engana,
Um véu de ilusão doce e desejada.
E o autor, na palavra que emana,
Produz miragem leve e fabricada.
Na prática é artista que se engana,
Mas no engano ergue obra encantada;
Por vezes substitui-se ao que imagina,
E perde o rosto em sua própria sina.
IX
A escrita é ato vivo e desafiante,
E o eu que cria e o ser criado embaraça.
Entre autor e personagem, num instante,
Não sei quem fala, ou qual de nós se enlaça.
No espaço e tempo o gesto fulgurante,
Mas sua essência logo se disfarça;
E em Benjamin encontro esta medida:
Aqui e agora pulsa a minha vida.
X
Agamben diz: há o instante derradeiro,
Em que se confunde a voz do autor
Com a do seu intérprete primeiro,
E ambos são um só, num só labor.
Na solidão se ouve o timbre inteiro,
Mas é preciso ocultar o seu rumor;
E a voz que surge em sombra tão fingida,
É minha e outra, em jogo repartida.
XI
Na tela antiga, Velásquez dispõe
O espelho em que o rei se refletia;
E ao contemplar o quadro, somos nós
Os que ocupamos o trono que fulgia.
Não é também o autor que ali se põe,
Cativo do olhar que se media?
O jogo entre discurso e o visível
É sempre armadilha, laço indizível.
XII
Por mais que o autor busque separação,
Entre a linguagem e o olhar que habita,
O reflexo o captura em sua prisão,
E no cristal da imagem o limita.
A pena é voz, mas nunca é visão,
E a realidade sempre lhe é contrita;
No brilho falso o texto se apresenta,
E o que mostra já não mais sustenta.
XIII
O que é visível é dor incontornável;
Poucos têm muito, e muitos não têm nada.
Do vértice cruel nasce o incansável,
O espectro dos sem-abrigo, alma errada.
Na grande cidade, um rosto inominável,
Que vive a céu aberto em fria jornada;
São multidões sem lar, sem esperança,
Na pirâmide amarga da abastança.
XIV
Escrevo, e temo o olhar que me condena
A fixar no texto aquilo que me fere;
Pois se descrevo a miséria tão pequena,
É dor que nunca o verbo mais confere.
E cada passo é chão que se envenena,
E a cada frase o abismo se prefere;
No início o fim já surge, em desatino,
E em sua sombra habita o meu destino.
XV
Beckett me guia nesta estrada,
De ausência e de silêncio renascido.
Avanço embora a meta seja nada,
E o chão me falte em vão no meu sentido.
Do começo ao fim a cena é traçada,
E o fim é pior, já nele estou perdido;
O meio é dor, o início é já ferida,
Mas no final a morte é consumida.
XVI
Assim na espera inútil de regresso,
Godot jamais virá, mas é chamado.
O teatro do absurdo é meu excesso,
E nele sigo só, desamparado.
A voz que resta é eco em retrocesso,
E tudo acaba em nada reiterado;
Que importa o autor, se a fala é só desdita?
Que importa o nome, se a pena é infinita?
XVII
Na cidade, em sombras, floresce o errante,
Sem nome, sem lugar, sem identidade.
É não-lugar da memória vacilante,
É labirinto infindo da cidade.
Perde-se o eu, dissolve-se o instante,
E a tradição se esvai em vanidade;
Quem há de escrever sua odisseia nua?
Que importa o autor, se a dor é sua?
XVIII
Eis que retorno à máxima fulgente:
Que importa quem fala? Eco ressoa.
O texto é chama viva, incandescente,
Que brilha além da mão que o delineia à toa.
O autor é só cadáver aparente,
É sombra vã que em nada se coroa;
O que importa é o verbo que persiste,
E nele vive o mundo que consiste.
PS: inspirado no texto EU AUTOR

Hernâni de Lemos Figueiredo nasceu em Alenquer (Portugal) e construiu a sua trajetória entre a palavra e o mundo. Com formação em Ciências da Comunicação e Programação Cultura, e movido por inspiração humanista e espírito inquieto, percorreu o território em busca de histórias vivas, gestos de resistência e vozes silenciadas. A sua literatura é marcada por rigor formal e profunfa consciência ética.