Constantino da Silva, o Vidraças
06/09/202602: Constantino da Silva, o Vidraças
Na ala central da antiga Cadeia da Comarca de Alenquer, a sucessora da “Cadeia Velha”, o eco da história ressoava entre as paredes de pedra fria. O espaço amplo, ladeado por duas filas de celas abobadadas cujas grades de ferro fundido pareciam ainda guardar os ais e os tormentos dos antigos reclusos, vestia-se de um silêncio grave e solene. Sob a abóbada alta, onde o luar entrava pelas frestas superiores desenhando barras de sombra no chão lajeado, reuniu-se a assistência, trinta alenquerenses interessados. Ao centro, de pé entre os dois corredores que conduziam à penumbra das antigas enxovias, a figura imponente de Titóino erguia-se como o guardião da memória viva da nossa terra. Ajustou os seus óculos pesados, passou o olhar pausado e profundamente humano pelas celas vazias e rompeu a quietude com aquela sua voz cavernosa, aveludada e quente, que parecia devolver a alma aos esquecidos do século XIX:
– Olhai em redor, meus amigos… Sentis a humidade, o odor a ferro e o peso esmagador destas pedras? Não poderíamos ter escolhido lugar mais próprio para o serão desta noite. Estamos nos entraves da antiga Cadeia da nossa Comarca, o lugar onde a lei e a marginalidade se cruzavam na Alenquer de oitocentos. Mas não estejamos aqui como juízes severos nem como curiosos de gabinete. Estamos aqui com a compaixão e o olhar humanista que a História nos exige.
Titóino fez uma pausa sentida, abriu as mãos num gesto de acolhimento e olhou cada um dos presentes nos olhos:
– Pergunto-vos, meus amigos: porque existem os criminosos? Porque existiram estes miúdos da rua? Ninguém nasce ladrão, ninguém nasce vilão! É a vida, é uma sociedade desumanizada, cega e profundamente injusta que, gradualmente, os encurrala e os constrange a isso. Olhando para estes rapazes que a imprensa da época carimbava de “delinquentes juvenis”, pergunto-me se existia verdadeiramente um aumento de delinquência… ou se o que tínhamos, então como agora, era um crescimento avassalador de jovens em risco, abandonados à sua sorte! Quando aqui chegavam, já prisioneiros dos seus próprios tormentos e condenados à espera da justiça legal, sentiam-se, e com toda a razão, injustiçados e maltratados por um mundo que nunca lhes estendeu uma mão favorável.
O narrador deu dois passos lentos pelo corredor central, o som dos seus sapatos a ecoar nas lajes, e enquadrou a época com o seu rigor erudito:
– Recuemos aos meados do século XIX, à época da Regeneração. A nossa Alenquer transformava-se. A força das águas do nosso rio atraía a revolução industrial: a Real Fábrica do Papel, a imponente Fábrica Nova da Romeira e, mais tarde, a Chemina. A vila agrícola vestia-se de vapor e teares. Mas a que preço, meu Deus? A que preço se erguia essa prosperidade? À custa de jornadas desumanas de 12 a 16 horas, de bairros operários insalubres e sem saneamento, minados pela tuberculose e pela miséria. E, acima de tudo, à custa do trabalho infantil.
Titóino apontou para as celas, a voz trémula de comoção contida:
– Crianças de 7 e 8 anos, meus amigos! Filhos de operários que, em vez de segurarem a lousa de pedra para aprenderem a ler nas poucas e paupérrimas escolas de Passos Manuel, viam os seus dedinhos ágeis esmagados a emendar fios nos teares em movimento ou a carregar trapos velhos. As leis de escolaridade obrigatória eram uma ilusão no papel; a fome em casa era uma realidade diária. E foi neste ambiente sufocante, entre o suor das fábricas e a dureza dos campos, que cresceu a criança de quem hoje vos falo: Constantino da Silva, nascido no nosso concelho por volta de 1850.
O silêncio na ala da cadeia era absoluto. Titóino prosseguiu, articulando cada palavra com dramatismo e clareza:
– Aos doze anos apenas, escutai bem, meus amigos, uma criança de doze anos!, Constantino recusou-se a ver a sua infância esmagada no amanho da terra ou no cativeiro do trabalho fabril. Fugiu. A linha do caminho-de-ferro no Carregado, inaugurada em 1856, e as novas estradas funcionavam como um íman. O miúdo apanhou o rumo a Lisboa. Mas a grande cidade não era o paraíso esperado; era uma selva hostil. Sem eira nem beira, sem tecto nem pão, o rapaz foi acolhido pela única escola que encontrou aberta nas zonas portuárias e nos bairros populares: a gatunagem de sobrevivência: começou por aliviar as algibeiras dos incautos.
O narrador fez uma pausa, erguendo o indicador iluminado pela réstia de luz:
– Apanhado numa rusga pouco tempo após a chegada, revelou uma intuição prodigiosa. Com lágrimas no rosto, fez-se passar por “órfão de pai e mãe, abandonadinho de todos” que apenas roubava para não morrer de fome. A polícia soltou-o… mas quinze dias depois caía novamente. Percebendo que o teatro da piedade já não funcionava, deu na esquadra um festival de desespero e agressividade: rebolou no chão, insultou e agrediu quem se aproximava. A justiça da época, que não conhecia o conceito de protecção de menores nem de assistentes sociais, meteu o miúdo de doze anos num estabelecimento correccional, trancado com adultos e criminosos empedernidos.
Titóino baixou o tom de voz, num tom confidencial e pesaroso:
– Ali, meus amigos, naquele Reformatório que devia regenerar, o Constantino fez a sua verdadeira recruta. O convívio com os velhos raposões da gatunagem transformou o rapazinho de Alenquer num profissional frio e meticuloso. Ao sair, preparado para voos mais altos, planeou o assalto à sede de uma Companhia Mutualista. E é aqui, por volta de 1863, com apenas 13 ou 14 anos, que o nosso Constantino entra para a História com um título pioneiro e triste: foi um dos primeiros criminosos em Portugal a ser fotografado para os arquivos de identificação policial!
Titónio continuou com aquela voz poderosa:
– Imaginai a cena: uma criança de treze anos, de cabeça erguida perante a câmara do fotógrafo da polícia, orgulhoso da sua ficha e de ser celebrado pelos jornais como “o mais habilidoso executante de roubos com canivete”! A imprensa burguesa olhava para ele com curiosidade folclórica, a criminologia contemporânea iria mais tarde estudá-lo em compêndios ao lado do “Ladrão dos Baús” ou do “Lareco”… Mas, ninguém, ninguém no Estado ou na sociedade se perguntava: onde falhámos nós para fazer desta criança um monstro da crónica negra?
A voz do narrador elevou-se sob as abóbadas de pedra da cadeia:
– Impotente e cega, a justiça do Reino aplicou-lhe o castigo reservado aos grandes inimigos do Estado: o degredo para África! Com catorze anos apenas, o Constantino embarcava para Cabo Verde. Quatro anos passou no degredo, entre a prisão militar e as funções de corneteiro na artilharia. Quando o navio D. Antónia o devolveu a Lisboa, o rapaz vigoroso trazia o corpo destruído pelas febres e pelas Doenças dos trópicos. Trazia os olhos tão atacados que, após internamento no Hospital de São José, passou a usar umas espessas lentes de vidro. Nascia ali a alcunha que o imortalizaria: “O Vidraças”!
Titóino aproximou-se da assistência, com um olhar de profunda humanidade:
– Houve ainda uma tentativa de redenção, meus amigos, o Vidraças ainda tentou ser homem honesto. Apresentou-se à polícia, pediu trabalho digno e chegou a suar a camisa como operário numa fábrica em Xabregas. Mas as velhas amizades e o apelo do ganho fácil do submundo voltaram a bater-lhe à porta. Dizia-lhe o vício que a vida de operário era longa e miserável, ao passo que as suas mãos habilidosas podiam render uma fortuna num único golpe. O Vidraças regressou ao crime, agora com o estatuto respeitado, e temido, de veterano.
O narrador sorriu com nostalgia erudita, mudando o ritmo da narrativa:
– E é aqui que a história do Vidraças se cruza com o folclore e a linguagem secreta da malandragem oitocentista, o calão dos gatunos, a gíria das matas! Certa vez, numa incursão à célebre feira de Évora na companhia de um comparsa alcunhado “O Tordo”, o Vidraças viveu a sua maior ironia. Esquivando-se aos polícias e aos bufos que o esperavam na estação, meteu–se no ajuntamento da feira e deu um verdadeiro festival de destreza: limpou o relógio e a corrente de ouro a um provinciano, surripiou a uma senhora uma bolsa de prata carregada com vinte libras de ouro e notas, e ainda despojou outro incauto de uma valiosa carteira.
Titóino soltou um curto riso cavernoso que ecoou na ala central:
– Todavia, o maior gatuno de Lisboa haveria de ser enganado pelo seu próprio comparsa! Confiou o saque ao “Tordo” enquanto continuava a operar na feira; quando acordou na manhã seguinte, no meio do mato onde pernoitara, o “Tordo” tinha esvaziado as tralhas e fugido com todo o produto dos roubos, deixando o Vidraças apenas com uns parcos réis no bolso! Quem com ferros mata, com ferros morre…
O narrador regressou ao centro da sala, recompondo a postura solene. A luz do luar parecia agora focar a sua figura intemporal:
– Em apenas vinte anos de vida, entre o seu nascimento em terras de Alenquer cerca de 1850 e o ano de 1870, Constantino da Silva somou mais de trinta detenções, dezenas de assaltos provados e a marca indelével do degredo ultramarino. Mas tal como surgira das brumas da nossa província, o Vidraças acabou por se esvair na sombra. Remetido novamente ao degredo em África após um último grande golpe, a sua figura desapareceu para sempre nos confins do século XIX, sem deixar rasto nem túmulo conhecidos.
Titóino fez uma pausa prolongada. Olhou para o tecto da ala central da cadeia, onde as sombras pareciam dançar, e rematou com solenidade comovida:
– Constantino da Silva, o “Vidraças”, já não passava de um pobre diabo quando o tempo o apagou da circulação. Mas ao recordar a sua história aqui, nestas celas prisionais de Alenquer, não o fazemos para glorificar o crime. Fazemo-lo para lembrar que por trás de cada “Vidraças” existiu uma criança a quem roubaram o pão, a escola e o futuro. As pedras desta cadeia guardam a memória dos heróis, mas devem guardar também a memória dos vencidos e dos injustiçados da terra.
– E assim, meus amigos, com a compaixão que devemos às vítimas da História, encerramos mais um serão.
Alenquer, 6 de Setembro de 2026