De Alenquer para o Mundo

05/12/2025 0 Por Hernani de Lemos Figueiredo

DE ALENQUER PARA O MUNDO

Festas Imperiais em Louvor do Divino Espírito Santo

“Os iniciados na doutrina dos espirituais franciscanos identificaram Alenquer como sendo a povoação portuguesa com mais semelhanças a Jerusalém, a que constituía o modelo de Cidade Santa, a imagem representativa da teofania” daí a Rainha Santa Isabel ter patrocinado a “Casa do Santi Spritto” e as “Comemorações Imperiais em Louvor do Divino Espírito Santo”

Igreja e Convento de São Francisco

Com início em Alenquer, em 1295², as Festas Imperiais em Louvor do Divino Espírito Santo rapidamente se expandiram por todo o reino, atingindo o apogeu nos séculos XIV a XVI³ e começando a perder importância no século XVIII⁴. Em todas as povoações da Rainha Santa, como Alenquer, Leiria, Porto de Mós, Óbidos, Torres Novas e Sintra, realizavam-se com esplendor⁵, embora nem sempre mantivessem todo o simbolismo original, pois em muitos locais foram alteradas pela dinâmica popular. Estas festas chegaram também ao Brasil, África, Índia, Canadá e Estados Unidos, onde, no ano passado, em Fall River-New Bedford, cerca de 150.000 pessoas assistiram às celebrações⁶.

Todas as classes participavam desse culto, que se tornou, desde o reinado de D. Diniz, uma das principais devoções da Casa Real⁷, razão pela qual não é de se estranhar que tenha surgido intimamente ligado ao ato inicial e decisivo da expansão marítima portuguesa (período henriquino)⁸.

No território nacional, apenas nos Açores essas comemorações permanecem regularmente em atividade. Em Alenquer, o último ano em que se comemoraram foi 1945 (19 de maio)⁹.

Por que começaram em Alenquer e não em outra vila portuguesa? Para justificar melhor essa escolha, é preciso entender a sociedade religiosa da época e o proselitismo da Rainha Santa Isabel. Apenas a heterodoxia de D. Diniz em relação aos dogmas vigentes e a antinomia entre as profecias emergentes permitiram que, na Universidade de Lisboa, fossem ensinadas publicamente teses como: os maiores enganadores do mundo foram: Moisés, que enganou os judeus; Cristo, que enganou os Cristãos; Maomé, que enganou os sarracenos ¹⁰.

Na vida espiritual, é muito difícil determinar quando terminou a Antiguidade e começou a Idade Média. A transição de uma prática religiosa para outra foi bastante tardia. Com um conceito de independência da matéria, a espiritualidade exprimia a dimensão religiosa da vida interior e implicava uma ciência da ascese, que conduzia, através da mística, à instauração de relações pessoais com Deus¹¹. Os monges beneditinos de Cister abandonaram o mundo civilizado e instalaram-se em terras desérticas; as aldeias foram destruídas e os camponeses expulsos para que os cistercienses constituíssem desertos em torno das suas novas fundações¹².

Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Triana

Como conciliar pobreza individual e riqueza coletiva? Como era possível estar presente perante os homens quando se recusava o mundo? ¹³. Estas contradições acabaram por prejudicar a imagem da Ordem.

Joaquim de Fiore¹⁴ demonstrou descontentamento com relação a um monaquismo ¹⁵ em vias de secularização e incitava os espíritos mais religiosos à expectativa de uma nova era. Partindo de uma meditação sobre o Apocalipse e sobre o mistério da Trindade, anunciava a chegada próxima de uma idade do Espírito Santo, marcada pelo aparecimento de uma Igreja espiritual, totalmente contemplativa e pura, que espalharia sobre toda a terra o Evangelho eterno¹⁶. Ou seja, a história da humanidade percorreria, da Criação ao Fim do Mundo, três tempos, vividos cada um sob a influência das três pessoas da Trindade. A Lei Mosaica foi própria da Idade do Pai, a Lei Evangélica da Idade do Filho e a futura Lei do Evangelho Eterno seria do Espírito Santo. A sede da Igreja do Pai foi Jerusalém, a do Filho, Roma. E a Terra Santa vindoura, onde situá-la? Os iniciados na doutrina dos espirituais franciscanos identificaram Alenquer como sendo a povoação portuguesa com mais semelhanças a Jerusalém, constituindo o modelo de Cidade Santa, a imagem representativa da teofania¹⁷. Daí a Rainha Santa Isabel ter patrocinado a Casa do Santi Spritto¹⁸ e as Comemorações Imperiais em Louvor ao Divino Espírito Santo ¹⁹, provavelmente inspirada por franciscanos de tendência espiritual e porque escolher Alenquer para alguma ação era sinal de total soberania de sua parte. Aqui, mais do que em outro lugar, ela era rainha.

Também pode ter contribuído para o início das Festas Imperiais em Louvor ao Divino Espírito Santo em Alenquer a crescente contestação de D. Diniz ao exclusivo eclesiástico em matéria de soberania real, pois a coroação era uma prerrogativa que o Papa reivindicava como sua e D. Diniz proclamava a supremacia do poder civil²⁰.

No século XIV, a arte tinha por força única a sátira ²¹, podendo ter sido esta a forma que D. Diniz encontrou para mostrar a sua rebeldia em relação ao Papa, pois o mistério do culto negava a autoridade do Supremo Pontífice, ao mesmo tempo que fazia crer que a coroação do Imperador tinha por significado a investidura simbólica da Nação do Espírito Santo, espécie de Pentecostes nacional, na missão de propagar a fé por todo o mundo ²², tarefa que os franciscanos, em parte, vieram a desempenhar.

Tinham as comemorações o seu início no Sábado de Aleluia com a Procissão da Candeia 23 que saía do Convento de São Francisco. Trazia uma das pontas dum rolo de cera benta aceso, ficando a outra ponta a arder no altar. Em procissão iam até à Igreja de Triana, onde acendiam as velas do altar mor e ” onde estava um homem em tronco nu, com os seus panos e com uma candeia nos braços em maneira de bandeira, assim como vem na procissão e pô-la no dito altar aonde há – de arder continuamente todo o ano e gastar-se nos ofícios divinos e missas .24

(mais tarde generalizou-se esta cerimônia às outras igrejas da vila) e em seguida vai a procissão com todas as cruzes das igrejas e conventos à Santa Casa do Espírito Santo e nela, benzem os sacerdotes o pão e a carne que ao outro dia se há-de comer em um bodo, o que tudo se ordenou por instrução da Rainha… (25) . Envolvia-se assim a vila numa mecha de cera benta que andava sempre ardendo.

Pela manhã de Domingo de Páscoa, no Convento de São Francisco, constituía-se o Império com os futuros Imperador e Reis a oferecerem a Nossa Senhora as três coroas reais, sendo uma delas doada pela própria Rainha Santa Isabel . (26) Um religioso com vestes sacerdotais coroava o Imperador e os dois Reis e em seguida, em procissão, dirigem-se à Santa Casa do Espírito Santo onde no Altar Mor o Imperador e os Reis ofereciam suas coroas ao Divino Espírito Santo para em seguida assistirem em trono sob dossel às danças e outros folguedos dos nobres.

Quando estava algum príncipe herdeiro em Alenquer, era este que transportava a coroa do Imperador da Igreja do Espírito Santo ao Convento de São Francisco, onde se dá o início da festa (27) e quando não houvesse Imperadores prometidos, que então elegessem outros da Vila e Termo, dos mais abastados e pertencentes que o fossem e isto tudo seria feito com conselho dos ditos confrades para a dita festa se não desfazer e os outros irmãos os ajudarão e contribuirão cada um com aquilo que honestamente puderem segundo as suas faculdades . (28)

Consta a tradição que na primeira solenidade, quem figurou de Imperador, foi um indigente, a quem D. Isabel depois serviu um bodo por suas próprias mãos (29)    prática esmolar que a Rainha Santa o fazia com frequência, pois … como servia a Deus por amor, não por jactância, mandava vir, com todo o segredo, ao paço, treze pobres dos mais miseráveis, quando se não achavam leprosos, e posta de joelhos lhes lavava os pés, e depois os servia à mesa e dando a cada um sua esmola e vestido .. . (30)

Igreja do Espirito Santo e ex Casa do Santi Spritto

Pela tarde de Domingo de Páscoa saía o Império da Igreja do Espírito Santo e dirigia-se ao Convento de São Francisco com muitas festas e trombetas e grande multidão de gente com canas verdes nas mãos e dois pagens iam à frente um deles com a coroa, o outro com o estoque . (31) Já no Convento de São Francisco efectuava-se de novo a coroação e onde o sacristão dava ramalhetes aos nobres e eles costumavam aqui dançar com duas donzelas de muita honestidade, que acompanhavam o Imperador na qualidade de suas damas, título que correspondia a parte do dote para os seus casamentos (32) Terminada esta festa, retomava o Imperador em procissão à mesma Igreja do Espírito Santo onde oferece a coroa no Altar e pelas mãos dum sacerdote a recebe outra vez e assiste em trono sob dossel às festas . (33)

Nos domingos de Pascoela e Bom Pastor, recomeçavam as festas, que só terminavam pelo Pentecostes. Na Páscoa do Espírito Santo (Domingo dos Fogaréus), a festa se prolongava noite adentro, fazendo-se elevar as chamas de muitas pinhas resinosas, estopas embebidas em gordura e outras substâncias, tudo incendiado em conchas de ferro para difundir luz ³⁴.

Ao lado das cerimônias religiosas, havia festas populares (touradas, jogos de destreza, cavalhadas, etc) a que concorriam reis e nobreza que dos quatro cantos do reino acorriam a Alenquer … e havia a obrigação de um bodo aos irmãos mais devotos no dia de maior pompa. Gastavam-se cerca de mil e quinhentos quilos de pão. Havia touradas, e as rezes que depois eram abatidas e a carne distribuída no bodo . (35) Vindo el-rei Dom Duarte em romaria a Alenquer para assistir à festa, por ser costume os reis virem a ela, mataram-se doze touros por razão de muita gente . (36)

Veja este trabalho em verso

Hernâni de Lemos Figueiredo

in Meteoro, 1 de junho de 1999

in Jornal D’Alenquer, 1 de novembro de 2000, pp 30 e 31

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