Morin no Dia Mundial do Livro
23/04/2026Morin no Dia Mundial do Livro
I – INVOCAÇÃO
No dia em que o Livro no mundo é honrado,
Em vinte e três de Abril, clara lembrança,
Este dizer consagro, e voto, e brado,
A Morin, que em saber nos dá confiança;
Que ao fio antigo dá nó mais apertado,
E em laço une ciência e humana andança;
E ao grito: “Ensinai-nos a ser humanos”,
Com Pascal junto os monstros e os arcanos.
II – O HUMANO E A SUA COMPREENSÃO
No quinto tomo, em que o Método cresce,
De novo brada: “Quem, quem somos nós?”
E mostra: quanto o saber em partes desce,
Mais perde o humano o fio e a clara voz;
Ergue, contra a secção que tudo esquece,
Religa as ciências às Humanidades, pós
Que a condição do homem inteira se revele:
Bio, sujeito e social, para que à barbária pele.
III – A TRINDADE
Trindade chama indivíduo, e sociedade,
E espécie; não repouso, antes contenda;
Em cada um mora o outro, e sua verdade
Em cada um se contradiz, e se emenda;
Da dura dialéctica nasce a identidade,
Que em móvel companhia se sustenda;
Unitas multiplex, um, de mil maneiras,
Fechado e aberto às vagas derradeiras.
IV – A REFORMA DO PENSAMENTO
Eis o horizonte: a crise, ampla e severa,
Onde o destino humano se aventura;
A “planetarização”, que em si tempera
O laço que congrega e a desventura;
Se o pensar se apequena, a noite impera,
E em novas barbárias cai a cultura;
Urge reforma: ao peito, e à Educação,
Que ensine pertença e distinção.
V – O PENSADOR DA COMPLEXIDADE
Morin, do complexo intérprete escolhido,
Polímata tardio, e claro lume,
Não só contempla ao nó mais escondido
Vai, e do pó ao sol lhe achou o cume;
O saber, por lâminas, é mal partido
Se ao vivo corta o sangue e o próprio volume;
Quer ver o todo, em seus contrários, inteiro,
Sem reduzir o mar a um regueiro.
VI – O “NASCIMENTO” DE EDGAR MORIN
Edgar nomeou-se, na sombra, Morin;
Nahoum foi, em Paris, de vinte e um;
De estirpe sefardita, em alto fim,
Do pai Vidal, de Salónica, comum;
Da mãe, Luna Beressi, o breve sim
Lhe fez da infância um luto, sem nenhum
Remédio; e em lei tomou, na Resistência,
O trágico e o dever da consciência.
VII – A RUPTURA COM O DOGMATISMO
Depois da guerra, a Alemanha maltratada
Escreveu; e na Ciência fez vigia;
No Partido, a doutrina, empenada,
Negou da ortodoxia a tirania;
Assim, sem dogma, a senda foi-lhe dada:
Da cultura à razão, cresce-lhe o dia;
O pensamento, em voz já madura,
Fez-se mundo, em lição, em douta altura.
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