A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura (vii): Ainda a Real Fábrica de Alenquer, a mais moderna ao seu tempo

A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura (vii): Ainda a Real Fábrica de Alenquer, a mais moderna ao seu tempo

24/07/2019 0 Por hernani

A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura

Das suas origens ao séc. xx (vii)

Ainda a Real Fábrica de Alenquer, a mais moderna ao seu tempo

Real Fábrica de Papel de Alenquer

Voltando a Alenquer e à sua Real Fábrica cuja marca de água mais antiga, que se conhece, nos mostra os dizeres «R F DALEMQUER 1806»[1], acrescente-se que este estabelecimento abriu equipado com cilindros para romper trapo por meio de lâminas, cilindros esses accionados por meios hidráulicos.

Chamavam-se à holandesa por terem sido inventados nesse país, pelo que não admira que o primeiro mestre de máquinas da fábrica tivesse sido um holandês que chegou a Alenquer acompanhado de outros dois compatriotas que com ele eram os responsáveis pelo fabrico da massa e da cola, materiais e técnicas de que resultava a produção do papel dito de Holanda muito apreciado nesses tempos.

Outra particularidade inovadora da fábrica adveio do facto de esta possuir oficinas de fiação e tecelagem de lã para a manufactura dos buréis, panos grosseiros, onde assentavam as folhas depois de escorrida a água, assim como oficinas de carpintaria para o fabrico e reparação das formas de madeira cujo fundo era constituído por uma malha de latão ou arame que deixava no papel as conhecidas vergaturas e pontusais[2].

Tudo parecia caminhar bem, mas no horizonte do porvir desenhavam-se já dois acontecimentos que viriam a abalar a rotina da fábrica, acabando mesmo por conduzir ao seu encerramento: As invasões francesas e a repressão miguelista, particularmente a que se abateria sobre os liberais alenquerenses após o fracassado golpe do Porto de 1828.

Quanto ao primeiro tudo indica que foi bem superado pois na sequência do mesmo a sua situação foi considerada «progressiva», apesar da vila ter ficado exposta ao inimigo que a ocupou, embora desprovida de gentes e de bens, como nos deixa perceber a ordem dada ao corregedor da comarca de Alenquer para que se procedesse á «mudança de animais e bestas desta comarca para a de Montemor-o-Novo» e que os moradores guardassem as suas preciosidades e se recolhessem na linha de defesa aquando da aproximação do inimigo[3].

É de 1810 e de data muito próxima à da entrada de Massena em Portugal, um interessante ofício de Geraldo Braamcamp a Miguel Forjaz[4], Secretário da Marinha e da Guerra, com a certidão de matrícula dos empregados da Real Fábrica «em virtude da insinuação com que V. Ex.ª me honrou» como agastado escreve Braamcamp.

A «insinuação» teria resultado do facto de os empregados da fábrica gozarem do privilégio do não cumprimento de obrigações militares e porventura haver quem se estivesse a aproveitar disso para fugir aos deveres que o momento grave da vida da Nação impunham. A certidão tem a particularidade de nos mostrar como se articulava o quadro de pessoal da fábrica que, então, empregava 193 pessoas.

Mais interessante ainda, esse documento dá-nos a conhecer o seu quadro comercial com comissários do trapo em Lisboa, Setúbal, Vila Franca de Xira e termo de Alenquer, este último igualmente o guarda do armazém no porto fluvial de Vila Nova da Rainha, onde a fábrica possuia a sua própria fragata para o tráfego fluvial das matérias primas que consumia, máquinas e materiais necessários à sua laboração e transporte para Lisboa do produto fabricado[5],  assim como Director, Administrador de Armazém em Lisboa e Procurador da fábrica nessa mesma cidade.

Em 1828, concluídos 25 anos de laboração, a fábrica deveria ter passado para a Imprensa Nacional, o que não aconteceu e agravaria a sua situação afectada por acontecimentos exógenos à actividade fabril. Sobre isso escreveu Guilherme João Carlos Henriques:

«O resultado foi que, por aviso de 7 de Março do mesmo ano, se mandou continuar a laboração que, efectivamente continuou até Março de 1829, época em que se fechou em consequência da prisão por opiniões políticas do administrador, ajudante, mestre, e melhores oficiais da mesma Fábrica»[6].

Numa carta, diríamos, quase patética, de António Francisco Machado, «Director de Caixa» da sociedade, como assim se identifica, ao Conde de Basto, «Ministro Secretário de Estado dos Negócios do Reino» ao serviço de D. Miguel I, que por Aviso de 29 de Outubro de 1829 o intima a «contar na sua real presença os motivos justificados porque se acha fechada a Fábrica de Papel de Alenquer», assim se explica o idoso Director:

– Que a fábrica «foi mandada continuar a laboração enquanto não davam outras providências» mas que «desta continuação nenhum lucro resultava à Sociedade, mas antes perda».

– Que «vindo o mês de Julho [de 1828] foram presos Domingos António de Pinho que servia de Ajudante da Administração desde 1817 e António Guzano antigo oficial da fábrica desde a sua criação e depois Mestre dela desde o tempo em que se despediram os mestres holandeses. E no seguinte mês de Agosto também foi preso José Joaquim de Almeida, encarregado da repartição do trapo apurado».

– Que «não obstante a falta destes homens experientes naquela laboração superior, como foi possível esta falta, a fábrica não cessou de trabalhar. Veio o mês de Março de 1829 e então foram também presos João António Simões, empregado da fábrica desde o seu princípio e Administrador da mesma, desde 1817, foi preso o seu filho José António Simões que estava servindo no lugar do antecedente preso Domingos António de Pinho e foram igualmente presos Leonardo Guzano e bem assim seu irmão Luís Guzano, aprendiz, e José da Costa que servia a fábrica desde a sua creação no Lixador e ajudava de Mestre desde 1816».

– Que «vendo-me por esta maneira privado de empregados indispensáveis e não estando ao meu alcance, nem sendo óbvio acharem-se outros com os precisos conhecimentos desta laboração, foi então consequência involuntária da minha parte parar a Fábrica por falta de pessoas que inteligentemente a dirigissem; e eis aqui Real Senhor a causa verdadeira e justa porque a fábrica se acha fechada».

Estas foram, digamos, as causas operacionais, mas Machado aproveita para fazer ver a situação em que se encontrava a Sociedade passados os vinte cinco anos previstos para a sua vigência. Diz ainda ele: «Visto mais acresce que a sociedade se acha já acabada e os sócios primitivos de que se compunha todos falecidos, sendo eu somente o único que deles todos resta, cheio de achaques e idade e incapaz daquela actividade», solicitando, por isso, «uma liquidação para fazer a entrega do trapo que ainda existe e de tudo o mais que se compõe a fábrica».[7]  

Os acontecimentos políticos, fruto da guerra civil que o país viveu, lograram, assim, aquilo que a invasão francesa não conseguira, ou seja, o encerramento da fábrica no rescaldo da fracassada rebelião do Porto, de Maio de 1828, que as células revolucionárias de Alenquer, a da Quinta de Meca onde pontificava Bento Pereira do Carmo, vulto do movimento liberal, e a da Fábrica de Papel[8], se preparavam para secundar, isto aliado, como se viu, ao esgotamento, chamemos-lhe assim,da Sociedade criada para a erigir e gerir.


[1] – Arnaldo Faria de Ataíde e Melo – “O papel como elemento de identificação”, Anexos 185.

[2]– AHM – DIV/3/13/20/22 – Certidão passada por José Ignácio Machado Rego, capitão reformado e escrivão da Conservadoria e da Real Fazenda da Real Fábrica de Papel de Alenquer a Francisco António Santos.

[3] – ANTT – PT/TT/PREE/2/129 – Certidão de José António de Oliveira Leite de Barros auditor geral, ao corregedor da comarca de Alenquer.

[4] – AHM – DIV/3/13/11/32.

[5]– ANTT – Feitos Findos, Processos. Crime, Letra A, mç 14, n.º 10, cx 36 – Autos Crime em que é réu António Fernandes, fragateiro da Fragata da Fábrica Real de Alenquer.

[6] – Guilherme João Carlos Henriques – “A Vila de Alenquer”, pág. 199.

[7] – AHMOP – PT/AHMOP/JC/40 – Real Fábrica de Papel de Alemquer.

[8] – Jorge Hugo Pires de Lima – “Duas células revolucionárias em Alenquer em 1828” in Boletim da Junta de Província da Estremadura, n.º 21, pág. 223.

TRABALHO COMPLETO

I – Uma indústria que, tardiamente, chega a Portugal

II – O moinho de papel de Manuel Teixeira, na Alenquer quinhentista

III- Esclarecendo o que aconteceu na Ribeira do Papel, em Queluz

IV- Os primeiros tempos da Abelheira

V – Voltando a Alenquer, a fábrica do “Trapeiro” na Requeixada

VI – Da Real Fábrica de Papel de Alenquer a Lisboa e ao seu termo

VII- Ainda a Real Fábrica de Alenquer, a mais moderna ao seu tempo – VOCÊ ESTÁ AQUI

VIII – Regressando à Abelheira e a Lisboa Moinho da Lapa

IX – A segunda vida da Real Fábrica de Alenquer

X – Alenquer – O último capítulo da vila papeleira

XI – Cronologia de Moinhos, manufacturas e fábricas de papel em Lisboa e na Baixa Estremadura (séc. XVIII/XIX)

@José Leitão Lourenço (2019)
Mestre em História Regional e História Local
lourenco31051947@gmail.com

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