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Ode de Natal nas margens do Rio Alenquer

17/12/2025 0 Por Hernani de Lemos Figueiredo

Ode de Natal nas margens do Rio Alenquer

Vês como a estrela brilha no alto cume?
O Alenquer corre, frio, sob as pontes
Que a Estremadura gela; o tempo antigo
Convida-nos

Ao repouso da alma. Não tragas vinhos
De estrangeira margem; basta o que nasce
Onde Damião colheu, de um saber puro,
O fruto.

Celebrou-a Camões; onde Isabel, a Santa,
O Paráclito invoca e onde os Impérios,
Em ritos de luz e de pão, o nosso espírito
Exaltam.

Afasta as sombras vãs e o medo incerto,
Fogo do lar, enquanto os bons amigos,
Sangue de um mesmo fado, buscam o
Descanso.

Seja o Natal um porto; o luxo é sombra
Que a alma corrompe. Fique a mesa cheia
De afetos e de vozes que a memória
Resgata.

Erguemos, pois, o brinde; que a paz more
No centro do peito. Alenquer vigia,
Terra de santos, onde o futuro em luz
Desperta.

…
Alenquer, 17 de dezembro de 2025
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OBS:

Que me desculpem os poetas da minha terra a falta de rimas mas, desta vez, segui o modelo clássico do poeta romano Horácio, que usava a métrica em lugar da rima, que usava o ritmo das sílabas longas e curtas para se focar na profundidade do pensamento.

Para elevar esta ode ao rigor de Horácio, precisei de me afastar da estrutura de “quadra popular” e abraçar a densidade sintática. Horácio não via o verso como uma unidade fechada; para ele, a frase era um rio que transbordava as margens do verso.

Nesta ode, procurei o ritmo através da alternância de cadências e da “suspensão” do sentido. A ideia é que o leitor não pare no fim de cada linha, mas seja empurrado pela lógica da frase até ao verso seguinte.

Também procurei alguma precisão histórica. Em Alenquer, o termo “Império” ganha uma dimensão única: não se trata de poder político, mas da celebração comunitária do Divino, onde a caridade da Rainha Santa Isabel e a partilha do pão e da carne se fundem no rito do Espírito Santo.

Para honrar esta tradição no estilo de Horácio, utilizei o encadeamento (enjambement) para dar peso à palavra “Impérios” e ao gesto da Rainha Santa, ligando a glória literária de Camões à prática espiritual da vila.

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