O MÉTODO V. A Humanidade da Humanidade

23/04/2026 0 Por Hernani de Lemos Figueiredo

O MÉTODO V: A HUMANIDADE DA HUMANIDADE

Para assinalar o Dia Mundial do Livro, a 23 de Abril de 2026, proponho estas linhas como um tributo a Edgar Morin, cuja obra tem por ambição, rara, e por isso mesmo necessária, reatar o fio interrompido que liga as ciências, as humanidades e a experiência vivida. Entre a injunção de Rodrigo de Zayas, «trata-se de ensinar a humanidade à humanidade», e o assombro de Pascal «que quimera é o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que sujeito de contradição, que prodígio? Juiz de todas as coisas, verme imbecil; depositário da verdade, cloaca de incerteza e de erro; glória e nojo do universo. Quem deslindará esta embrulhada?», Morin ocupa um lugar singular: o de quem recusa tanto a mutilação do real pelo reducionismo como a complacência nebulosa do vago.

No quinto volume de O Método, Morin retoma a pergunta axial, quem somos nós? para mostrar que quanto mais acumulamos saberes sobre o humano, menos o compreendemos, se esses saberes permanecerem dissociados. Contra o esfacelamento disciplinar, propõe uma operação de ligação: articular conhecimentos dispersos nas ciências e nas humanidades, reflecti-los e reinscrevê-los numa figura de conjunto capaz de acolher contradições sem as apagar. O alvo é explícito: romper com as imagens redutoras do homem (apenas homo sapiens, homo faber ou homo oeconomicus) e restituir-lhe, ao mesmo tempo, identidade biológica, identidade subjectiva e identidade social.

O livro organiza-se em torno de uma «trindade» que não é harmonia, mas tensão fecunda: indivíduo–sociedade–espécie. Cada termo implica os outros e, simultaneamente, os contraria; é nesta dialógica que se decide a identidade humana. Daí a noção moriniana de unitas multiplex: unidade do humano que só existe como multiplicidade (biológica, psíquica, cultural, histórica), e multiplicidade que só se torna inteligível se for pensada como unidade. Nesta perspectiva, o humano é, de uma só vez, aberto e fechado ao exterior, racional e afectivo, técnico e mítico, capaz do melhor e do pior, uma constelação de ambivalências que o pensamento simplificador ora oculta, ora absolutiza.

A resenha seria incompleta sem sublinhar o horizonte que dá unidade a este tomo: a crise planetária onde se joga o destino da identidade humana. Morin lê a «planetarização» como processo ambíguo,  simultaneamente unificador e produtor de novas barbáries, e insiste na urgência de uma reforma do pensamento que seja também reforma da educação. «Ensinar a humanidade à humanidade» significa, aqui, fazer ver a pertença comum sem suprimir a diversidade; reconhecer a comunidade de destino sem cair na abstracção; compreender que a ética do futuro nasce do conhecimento das interdependências, mas também da lucidez perante o risco de regressão. É por esta razão que A Humanidade da Humanidade se torna livro de consulta recorrente: porque não oferece um catecismo, mas um método, isto é, uma disciplina interior de complexificação, capaz de sustentar, sem desespero, a pergunta de Pascal.

Edgar Morin, O Pensador da Complexidade, um dos derradeiros polímatas do nosso tempo, não se limita a observar o mundo; ele disseca a tessitura da realidade, recusando a fragmentação do saber que define a modernidade tardia.

Edgar Morin, pseudónimo adoptado na clandestinidade, nascido Edgar Nahoum em Paris, em 1921, advém de uma família judaica sefardita: o pai, Vidal Nahoum, comerciante originário de Salónica, e a mãe, Luna Beressi, cuja morte prematura marcaria, em profundidade, a sua infância. Formou-se em Direito e em História e Geografia (1942), frequentando, em paralelo, estudos de Filosofia, Sociologia e Epistemologia, desde cedo avesso às fronteiras rígidas entre disciplinas. Durante a Segunda Guerra Mundial, integrou a Resistência Francesa, experiência que lhe fixou, para sempre, a consciência do trágico e da responsabilidade histórica.

Após a guerra, trabalhou sobre a Alemanha do pós-45 em L’An zéro de l’Allemagne (1946) e, já na década de 1950, ingressou no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), onde viria a tornar-se investigador emérito. Tendo aderido ao Partido Comunista Francês em 1941, dele se afastou e foi excluído em 1951, por recusar a ortodoxia estalinista, gesto que ilustra um traço constante: a recusa do dogma, mesmo quando o dogma se apresenta sob a máscara da emancipação. A partir daí, a sua trajectória intelectual alarga-se em espiral: sociologia, antropologia, epistemologia, teoria da cultura, reflexão política e, acima de tudo, o programa do pensamento complexo, tornado mundialmente conhecido por uma obra abundantemente traduzida e por uma actividade conferencista verdadeiramente planetária.

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