Império de Alenquer
19/12/2025IMPÉRIO DE ALENQUER
I – ORIGEM E EXPANSÃO DAS FESTAS
Em Alenquer, no ano de mil duzentos noventa e cinco,
Nasceu o Império, cresceu pelo chão,
Do reino expandiu-se, num tempo tão rico,
Séculos de glória, fervor e paixão.
No século dezoito, perdeu-se o cântico,
Mas antes brilhou em cada região,
Chegou ao Brasil, África e além-mar,
Em terras distantes fez-se celebrar.
II – DEVOÇÃO REAL E UNIVERSAL
Todas as classes, num só culto envolvidas,
Desde D. Diniz, fervor da Casa Real,
A fé e o rito, por gentes repartidas,
Ligaram-se ao início do feito naval.
Nos Açores, as festas são mantidas,
Em Alenquer, findaram no ritual,
Em mil novecentos e quarenta e cinco,
A última festa, o ciclo extinto.
III – ESPIRITUALIDADE E CONTRADIÇÃO
A transição da Antiguidade à Idade Média,
Foi lenta, marcada por busca interior,
Cistercienses criaram nova comédia,
Desertos fundaram, expulsando o labor.
Pobreza e riqueza, eterna tragédia,
Contradições feriram o seu valor,
A Ordem sofreu na sua imagem pura,
Entre o mundo e Deus, a alma insegura.
IV – PROFECIA E CIDADE SANTA
Joaquim de Fiore, profeta inspirado,
Anunciou nova era, Espírito Santo a reinar,
Três tempos da história, por Deus guiado,
A Lei do Pai, do Filho, e do Espírito a chegar.
Alenquer, Jerusalém, modelo elevado,
Rainha Isabel quis ali celebrar,
Casa do Santo Espirito, símbolo real,
Festas Imperiais, legado imortal.
V – O MISTÉRIO DE ALENQUER
Porquê Alenquer, e não outra localidade?
A resposta jaz na fé e no saber,
A Rainha Santa Isabel, sua vontade,
E D. Diniz, ousando o poder.
Na Universidade, a heterodoxidade,
Profecias e dogmas a se desfazer,
Moisés, Cristo e Maomé, questionados,
No tempo em que os dogmas foram quebrados.
VI – REBELDIA E SOBERANIA
Dom Diniz desafiou o poder papal,
A coroação, símbolo de autonomia,
A arte satírica, força sem igual,
Negava ao Papa a suprema primazia.
O Imperador, investido no ritual,
Era Pentecostes, missão e profecia,
Franciscanos levaram a fé pelo mundo,
No culto, o povo sentiu-se fecundo.
VII – PROCISSÃO DA CANDEIA
No Sábado de Aleluia, a procissão
Parte do convento, cera benta a arder,
Vai até Triana, cumpre a tradição,
No altar, a chama nunca há de morrer.
Homem em tronco nu, símbolo e paixão,
Com fé, nos braços a bandeira erguer,
A vila envolvida em luz e devoção,
O fogo sagrado, promessa de dominação.
VIII – O BODO E A PARTILHA
Na Santa Casa as cruzes vão chegar,
Sacerdotes benzem pão e carne ao povo,
No dia seguinte, todos vão partilhar,
Por instrução da Rainha, gesto novo.
A vila se une, a cera a caminhar,
A chama não cessa, o rito é um renovo,
O bodo alimenta, a fé faz celebrar,
A festa é de todos, o sagrado é para louvar.
IX – A COROAÇÃO DO IMPERADOR
Na manhã de Páscoa, o Império se faz,
Imperador e Reis ofertam coroa,
A Rainha Isabel, dá a sua, capaz
De unir o Divino, a fé ecoa.
O sacerdote coroa o povo em paz,
Em procissão, à Casa do Espírito voa,
No altar, as coroas são ofertadas,
E nobres dançam, almas elevadas.
X – O PRÍNCIPE E O INDIGENTE
Se há príncipe herdeiro, leva a coroa,
Do Espírito Santo ao convento vai,
Se não houver, escolhem quem abençoa,
Dos mais abastados, o conselho sai.
Na primeira festa, a tradição entoa,
Imperador indigente, humildade atrai,
A Rainha Isabel serve a partilha com amor,
Lava os pés aos pobres, exemplo maior.
XI – O CORTEJO E AS DAMAS
À tarde, o Império sai em procissão,
Trombetas, canas verdes, multidão a seguir,
Dois pajens à frente, coroa e bastão,
No convento, a coroação a repetir.
Ramalhetes aos nobres, dança e união,
Damas honestas, dote a construir,
Imperador retorna ao altar, tem oferenda,
Recebe a coroa, que a festa se estenda.
XII – PENTECOSTES E FOLGUEDOS
Nos domingos seguintes, a festa recomeça,
Só finda no Pentecostes, luz a brilhar,
Domingo dos Fogaréus, noite que não cessa,
Pinhas resinosas, chamas a elevar.
Estopas e gordura, ferro que aqueça,
A vila iluminada, todos a celebrar,
Entre cerimónias, folguedos populares,
Touradas e jogos, reis e nobres aos pares.
XIII – O BODO E A CARIDADE REAL
Na solenidade, o Imperador indigente,
Recebe das mãos da Rainha o pão,
Isabel, ajoelhada, humilde e crente,
Lava os pés aos pobres, gesto de união.
Treze miseráveis, segredo presente,
À mesa servidos, veste e doação,
Caridade sincera, amor sem vaidade,
Exemplo de fé, nobre humanidade.
XIV – O CORTEJO DA TARDE
Pela tarde, o Império sai triunfante,
Da Igreja do Espírito Santo ao convento,
Trombetas ressoam, multidão constante,
Canas verdes nas mãos, alegre momento.
Dois pajens à frente, coroa brilhante,
A espada reluz, símbolo e talento,
No convento, ramalhetes aos nobres são dados,
Damas honestas dançam, destinos traçados.
XV – O REGRESSO AO ALTAR
Terminada a festa, o Imperador retorna,
Em procissão, à Igreja do Espírito Santo vai,
Ao altar a coroa oferece, e a jornada entorna,
Pelas mãos do sacerdote, recebe-a outra vez, em paz.
Assiste em trono sob dossel, a vila se adorna,
Festas e folguedos, alegria que satisfaz,
O povo celebra, a fé é renovada,
Na tradição antiga, a esperança é guardada.
XVI – PENTECOSTES E LUZ
Nos domingos de Pascoela e Bom Pastor,
Recomeçam as festas, só findam no Pentecostes,
Domingo dos Fogaréus, noite de fulgor,
Pinhas resinosas, chamas e encostos.
Estopas e gordura, ferro e calor,
A vila iluminada, luzes e repostos,
A noite se alonga, a fé resplandece,
O Espírito Santo a todos enriquece.
XVII – FOLGUEDOS E NOBREZA
Entre cerimónias, brilham festas populares,
Touradas, jogos, cavalhadas e dança,
Reis e nobres chegam de distantes lugares,
A Alenquer acorrem, movidos de esperança.
À mesa, partilha-se o pão entre pares,
Mil e quinhentos quilos, sinal de bonança,
Rituais e rezes alegria repartida,
Dom Duarte presencia, a tradição é vivida.
XVIII – O ESPÍRITO DA PARTILHA
O bodo celebra a união da comunidade,
Mesa farta, abundância a cada chegada,
A carne dos touros, símbolo de fraternidade,
A alegria sincera, fé partilhada.
Reis e devotos, num gesto de igualdade,
O convívio comum, memória celebrada,
Partilha sagrada, laço que não se apaga,
No pão e na carne, a história se propaga.
XIX – A CHEGADA DOS NOBRES
De todos os cantos, reis e nobreza,
Acorriam a Alenquer, festa sem igual,
A vila enchia-se de rara grandeza,
O povo vibrava num tom triunfal.
Touradas, folguedos, a antiga beleza,
Mistura de ritos, fervor ancestral,
Dom Duarte em romaria, exemplo maior,
Doze touros tombaram, sinal de valor.
XX – O ENCERRAMENTO DAS FESTAS
Quando Pentecostes chegava afinal,
As festas findavam, luzes a apagar,
Mas ficava no povo o sentido imortal,
De fé e esperança, vontade de amar.
O Espírito Santo, poder celestial,
No coração de todos, a brilhar,
Alenquer guardava, com devoção,
Memória das festas, eterna vocação.
Alenquer, 19 de dezembro de 2025
Segundo o texto DE ALENQUER PARA O MUNDO