Mestre João Mário: O Homem, o Artista, o Legado

11/11/2025 0 Por Hernani de Lemos Figueiredo
João Mário contempla o seu Mestre

João Mário Ayres d’Oliveira, Alenquerense de sempre, nasceu em 1932, e como costumava dizer, a mãe foi a Lisboa só para ele nascer. É uma coisa doentia, eu sou um apaixonado por Alenquer, a minha terra , ouvi dizê-lo mais de uma vez.

Há homens que nascem para o seu tempo; outros, porém, nascem para o tempo todo. Mestre João Mário foi um desses raros escolhidos. Comovido, recordo-o sempre  como um amigo, um construtor de mundos. Foi assim que o vi, algumas vezes acompanhado pelo Mestre Duarte de Almeida, outras vezes só, com a paleta e os pincéis ás costas, pelos altos de Alenquer, à procura da luz perfeita, essa mesma luz que tanto o fascinou em Veneza, e que ele, generoso, trouxe depois para as suas telas, para as ruas de Alenquer, para os nossos corações.

É costume dizer-se que “a memória dos homens é curta”. A minha nem tanto, por isso, para mim, Mestre João Mário é, também, o homem que eu vi com o seu rápido e brilhante Alfa Romeu, ganhar quase todas as gincanas e provas de perícia, ziguezagueando no Largo Rainha Santa Isabel e no extinto campo de futebol do Sporting, no local hoje ocupado pelo edifício do Tribunal; por quem o comércio de Alenquer fechou as portas para assistir à sua tomada de posse como presidente da Câmara; que abriu um inquérito público  para identificar as necessidades das populações; que construiu o primeiro sistema de saneamento básico, ao tirar os esgotos de Alenquer que, até ali, iam parar ao Rio; que construiu as primeiras escolas primárias, do ensino preparatório e o primeiro liceu; que iniciou a eletrificação de todo o concelho; e que enfrentou as consequências das terríveis enchentes de 1967.

Para Mestre João Mário o acontecimento que o marcou mais decisivamente foi ter conhecido Álvaro Duarte de Almeida.

Não tenho dúvidas; Mestre Álvaro Duarte de Almeida foi um homem que me influenciou extraordinariamente; ele influenciou a minha personalidade, a minha maneira de ser, a minha maneira de estar na vida, não só na vertente artística. Ele foi um Apóstolo que segui como se segue um Mestre. Seguiu-o em tudo na minha vida. Foi, em certa medida, um exemplo para mim.

Mestre João Mário assumia que era uma pessoa extrovertida e que a sua pintura revelava parte do seu íntimo: quem me conhece sabe que os meus quadros refletem alegria e gosto pela vida, que é realmente aquilo que eu sinto .

Levava anos a idealizar uma ideia para pintar, e nunca repetia o mesmo quadro embora pudesse repetir o assunto; justificava-se que o próprio Cézanne havia pintado o Monte de Santa Vitória uma série de vezes .

Quando lhe perguntavam se se considerava um génio, a resposta era imediata e sincera:

Bem pelo contrário, a única coisa que sei é que pouco sei; estou sempre a aprender.

Essa sede de saber e a sua modéstia inabalável, que ele considerava a maior virtude do homem, foram a força motriz da sua vida. Ele era um eterno discípulo, aprendendo com o Mestre Duarte de Almeida, com as exposições de outros artistas e até com aqueles que, na sua consciência, sabiam menos que ele. Foi a sua humildade que o tornou tão grande.

Vou falar de um acontecimento que acompanhei de perto e que retrata bem o caráter humanista e de generosidade de Mestre João Mário.

Na conversa com Maria (nome fictício), fiquei a conhecer a sua odisseia. Aos dezoito anos, Maria sorria, cantava, pulava, como se o mundo fosse uma imensa janela aberta. Queria independência, não para gastar, mas para aliviar os pais do peso das contas. Saiu da escola e começou a trabalhar numa área comercial: seis meses depois, o destino preparava-lhe uma surpresa fatídica…

“Estava a carregar o monta-cargas”, começou, em tom sereno, quase distante .

Empurrava umas torres de vasilhames. Não podia fazê-lo para a frente, tombariam; era a recuar que dava certo. Coloquei a primeira carga e acreditei que a plataforma estaria no mesmo lugar; a porta aberta enganou-me. Quando dei por mim… já tinha caído, de costas, oito ou nove metros de altura .

Seguiu-se Alcoitão; um longo período. Quando já estava feito o que era para ser feito, regressou à velhinha e pitoresca aldeia dos seus pais, no sopé da Serra de Montejunto, no Município de Alenquer. Paraplégica, claro.

No longo e infinito processo de recuperação foi interveniente em diversas ações; diversas e diversificadas. Matriculou-se num curso de Artes Decorativas, e posteriormente, num curso de pintura de Mestre João Mário, sem imaginar o quanto isso mudaria a sua vida.

Quando o vi pela primeira vez foi algo de fascinante; para mim é como se fosse um segundo pai, tratou-me com um carinho muito especial.

Veio então a ideia duma exposição:

Tudo começou em Alcoitão, quando apresentaram uma cadeira especial que permitia ao utilizador ficar em pé. O preço? Um escândalo: 1.222 euros, mais IVA. O Estado não perdoa.

Sensibilizado, Mestre João Mário resolveu agir. Convidou amigos pintores para oferecerem quadros, vendidos por metade do valor real, um verdadeiro “preço de solidariedade”. Ele próprio cedeu cinco obras. Reuniu 39 artistas, e a exposição, chamada “A Arte como Expressão Afetiva”, foi um sucesso: 32 obras vendidas, 15 mil euros angariados, dos quais 7.900 eram de quadros oferecidos pelo Mestre. Só os dois primeiros quadros, Arco dos Pinéus e Rua de São Pedro, renderam 2.500 euros cada. A Maria obteve a cadeira milagrosa e o excedente foi usado noutros “fogos” que entretanto começavam a lavrar. E tudo pela Maria.

Lembro-me que terminei este trabalho com as palavras de Oliver Goldsmith: É admirável ver alguém lutar contra a adversidade; mas ainda mais bonito é ver quem corre em seu auxílio.

Tive o privilégio de entrevistar Mestre João Mário, demoradamente, para o Jornal D’Alenquer. E aprendi que, para o Mestre, a pintura era muito mais do que arte: era biografia, era alma derramada em cor; cada cor era como se fosse uma confissão de seu íntimo. Emprestamos a mão para outro,  disse-me certa ocasião citando Bonifácio Lázaro Lozano. Talvez por isso nunca desse um quadro por encerrado; talvez por isso continuasse sempre a aprender, mesmo quando já era mestre de tantos.

Ainda recordo essa entrevista, como se fosse hoje. No dia que saiu publicada recebo um telefonema seu. Do outro lado da linha, a sua voz embargada pelas lágrimas: Eu não merecia… eu não merecia…

Apanhou-me de surpresa, e não menos emocionado lá reagi com uma argumentação tosca, esfarrapada, pouco convincente e não à altura do momento.

Hoje, a esta distância, completo a minha resposta: Mestre, merecia; merecia tudo. Porque não foi só o artista dos quadros e das cores; foi o presidente que ergueu pontes e escolas, que devolveu ao rio a dignidade das águas limpas, que pôs barcos e espelhos de luz onde antes havia esgoto e esquecimento, que fez de Alenquer um quadro vivo assinado pelo tempo.

Hernâni de Lemos Figueiredo, vencedor do Prémio Literário João Mário Ayres d’Oliveira, após receber o diploma das mãos de Luís Rema, Presidente da Assembleia Municipal de Alenquer.

Há pessoas que não morrem. Podem partir, é certo, mas deixam no mundo uma luz que o tempo não apaga. Mestre João Mário foi uma dessas pessoas. Partiu, sim, a 26 de fevereiro de 2025, mas não morreu, porque há partidas que não partem.

E, enquanto houver um quadro seu na parede de uma galeria ou de um museu, ou na casa de um Alenquerense, enquanto houver memória das escolas que construiu, dos espelhos de água no rio e do embelezamento das suas margens que desenhou, do Presépio Monumental que inspirou, das cores que quis para Alenquer, da luz que pintou, da cultura que elevou, da humanidade e da generosidade que espalhou como quem semeia futuro, Mestre João Mário permanece sempre connosco; permanece continuadamente em nós.

E eu, humilde autor desta memória, apenas posso repetir o que ele próprio, tantas vezes, dizia:

Um quadro nunca está terminado.

Por isso, Mestre, aqui ficamos nós a continuar o seu quadro.

 

Alenquer, 8 de novembro de 2025

 

Hernâni de Lemos Figueiredo

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