Parabéns Alenculta
16/10/2026Parabéns Alenculta
Assinala-se hoje uma data que me é particularmente cara: perfazem-se, precisamente, treze anos sobre a constituição da Alenculta, lavrada por escritura pública na presença de 36 associados, nas instalações do Sporting Clube de Alenquer. Foi esse o corolário de um longo percurso, encetado a 1 de Agosto de 2012 por um grupo de alenquerenses inquietos com a inexistência, no concelho de Alenquer, de um projecto perene que tratasse a Cultura e as Artes à luz da democratização e da descentralização que a pós-modernidade reclamava. Tenho estes dois conceitos por fundamentais: se o primeiro franqueia o acesso ao património instituído, o segundo confere voz à pluralidade de identidades e de expressões; se naquele prevalece uma abordagem vertical, de cima para baixo, neste impõe-se um movimento ascendente, que enaltece a criação cultural comunitária; se, no primeiro, o espectador se limita como mero consumidor individual de cultura, no segundo ascende à condição de co-produtor cultural.
A relação entre cultura e democracia assenta no princípio de que a cidadania plena só se consuma quando aos cidadãos é dada a faculdade de participar activamente na vida cultural da sua comunidade. Na história da distribuição cultural, distingo dois momentos cruciais: o protagonizado por André Malraux, no rescaldo da Grande Guerra, que propugnava ser dever do Estado democratizar o acesso às grandes obras; e o encarnado por Pierre Bourdieu, pela sua postura crítica perante a pretensão de levar a cultura somente àqueles que dela se encontram privados.
Em 2012, compus um ensaio de inspiração bourdieusiana, intitulado “Distinção: um desafio para os programadores culturais”, no qual me debrucei sobre a democratização cultural, a distribuição cultural e a distinção — reportando-me, neste último caso, às “distinções” sociais. Convoquei então para esse ensaio o pensamento de Bourdieu: “a diferença existe, e persiste. É necessário, portanto, aceitar ou afirmar a existência de classes? Não. As classes sociais não existem. O que existe é um espaço social, um espaço de diferenças, no qual as classes existem de algum modo em estado virtual…”
Retrocedendo um pouco no tempo, até à constituição efectiva da ALENCULTA, levámos uma existência errante, à maneira de saltimbancos, reunindo onde as circunstâncias o permitiam, ora em cafés, ora nas sedes de algumas colectividades e juntas de freguesia do concelho. Foi nesses lugares que, com denodo e espírito voluntário, se apresentaram propostas, muitas delas tão fantásticas quanto, aos olhos de hoje, irrealizáveis, mas que espelhavam o nosso entusiasmo infatigável. Foi um período marcante, que perdura na minha memória e do qual subsiste um registo, hoje depositado na Alenculta, a que, com alguma pompa, atribuí o nome de ARQUIVO ZERO.
Recordo, não sem alguma nostalgia, que, finda a fase “romântica”, mal regressámos à terra firme, os problemas não tardaram a surgir. Carecíamos de sede, e celebrou-se então um protocolo com a Câmara Municipal de Alenquer para a cedência gratuita de instalações, com luz e água incluídas. Carecíamos de mobiliário e, uma vez mais, a Câmara acudiu, cedendo-nos algumas peças. Mas era preciso mais: impunha-se dispor de verbas para artigos de limpeza, material de expediente e tantas outras despesas, e a quotização revelava-se insuficiente, porquanto só funcionava aquando da cobrança da primeira quota (a cobrança de quotas constituiu, desde sempre, um problema por resolver); e, de novo, foi a Câmara que veio em nosso auxílio, mediante a atribuição de um subsídio anual. Em suma, se a Alenculta ainda “respira”, muito o deve “aos pulmões” da Câmara. Fica aqui expresso o meu reconhecimento à Câmara Municipal de Alenquer.
Alguns links de interesse:
CICLO ENCERRADO – https://saladainquietacao.com/ciclo-encerrado/
Alenquer, 16 de Outubro de 2026
Sócio Fundador da Alenculta nr. 1.