A Obesidade, o mal do princípio do século

A Obesidade, o mal do princípio do século

19/06/2019 0 Por hernani

A Obesidade, o mal do princípio do século

Há já quem fale em pandemia, epidemia e catástrofe sanitária. Depois da Assembleia Mundial de Saúde, realizada em 2004, a missão de lutar contra a obesidade tornou-se num objectivo prioritário de saúde, a nível europeu.

Fala-se em legislar, propondo o fim dos alimentos altamente processados nos estabelecimentos de ensino públicos e até mesmo na obrigatoriedade dos industrias financiarem mensagens nutricionais para reduzir os efeitos da publicidade destinada às crianças. Os relatórios científicos são tão alarmantes que fazem prever medidas mais rigorosas: o custo da obesidade vai agravar brutalmente o crescimento das despesas de saúde e dentro de dez anos uma em cada três crianças será declaradamente obesa. Há quem preveja daqui a vinte anos devido à obesidade vai baixar a esperança média de vida. Esta nova situação decorre do progressivo aumento da densidade calórica associada à menor actividade física, à procura de alimentos-prazer e aos comportamentos inadaptados como seja o petiscar a toda a hora.


Nas notas que se seguem, vamos procurar saber se o problema passa pelos bons ou maus produtos ou se a resposta mais efectiva não será dada pela boa utilização dos alimentos, culturalmente aceite.


Primeiro, a obesidade é uma preocupação mundial, não é um problema só dos Estados-Unidos ou da União Europeia. Os chineses tinham uma excelente massa ponderal, que está a agravar-se com o novo poder aquisitivo nas áreas industrializáveis. Seja como for, os EUA estão à frente no problema de obesidade a tal ponto que os seguros de vida já são calculados em função do peso dos tomadores de seguros.


Segundo, a obesidade manifesta-se por erros na proporção calórica, pela elevada taxa de insucesso nas tentativas de perda de peso que se baseiam fundamentalmente na proibição isto quando as pessoas reagem todas elas de maneira diferente ao consumo alimentar. A nova estrutura familiar pôs termo à necessidade de comer e de confrontarmos o que comemos a nível familiar. A partir de tenra idade a criança apreende que tem completa liberdade para decidir o que come e que a alimentação é primeiro satisfação e só depois um requisito da saúde.


Terceiro, querer inverter o flagelo da obesidade precisa de uma nova procura e novos comportamentos dos consumidores. É de prever que os produtos que não respondem à redução da carga calórica deixarão o consumo quotidiano e ficarão confinados à alimentação festiva. A nutrição deixará de ser uma norma padrão e adaptar-se-á à medida de cada indivíduo.


Quarto, somos hoje uma sociedade de consumo diferente daquela que existiu há 50 anos. O ambiente é totalmente diferente, há uma discordância cronológica entre a evolução e a adaptação do genoma. Muito provavelmente, não estávamos preparados para este enorme salto para hiperescolha alimentar, no contexto da vida sedentária, do estresse e da possibilidade de comer sem parar a cornucópia de bens que decorrem da agricultura produtivista.


Quinto, é inútil só responsabilizarmos a indústria alimentar como se não tivéssemos voto na matéria no mau uso dos alimentos e não existisse um vector educativo para saber decidir em nosso proveito dentre a profusão de produtos e não nos competisse uma gestão personalizada da relação que estabelecemos com os alimentos. As instituições públicas e privadas têm que se concertar para que haja mensagens unívocas para podermos responder a uma expectativa de soluções duradouras face à obesidade.


Sexto, não obstante a estratégia educativa, a saúde pública e a protecção do consumidor dependem de um quadro legislativo que deverá ser periodicamente testado. Por exemplo: pode-se responsabilizar as empresas pela obesidade como se responsabiliza a industria tabaqueira pelo tabagismo? Quem deve intervir na educação para saúde e quais os limites que se devem pôr ao marketing alimentar na sedução das crianças? Deve-se encontrar uma solução fiscal para tratar certos alimentos da mesma maneira com o tabaco e o álcool? Perguntas ainda sem resposta.


Os próximos anos serão controversos, mas estão tantos e tais interesses nesse jogo que nem sempre o debate ocorrerá num clima de serenidade. Porém, quanto mais tarde se adoptarem estratégias eficazes, mais dolorosas serão as medidas e mais dolorosos são os encargos com a saúde, sempre sobre o espectro da redução da esperança de vida. Não seria melhor começarmos já a reflectir sobre como pôr fim da o obesidade, o tal novo mal que ainda pode ser prevenido.

©Mário Beja Santos (2019)
Professor Universitário
Cofundador da UGC, União Geral de Consumidores

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