A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura (ii): O moinho de papel de Manuel Teixeira, na Alenquer quinhentista

A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura (ii): O moinho de papel de Manuel Teixeira, na Alenquer quinhentista

02/02/2019 0 Por hernani

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A indústria do papel em Lisboa e na Baixa Estremadura (ii)

Das suas origens ao séc. xx

O moinho de papel de Manuel Teixeira, na Alenquer quinhentista


Alenquer quinhentista e o Moinho de Manuel Teixeira.

E foi precisamente esta vila que viu nascer e trabalhar o primeiro moinho do papel da Baixa Estremadura, o que aconteceu por mercê do nosso rei D. Sebastião vertida no alvará com força de carta datado de 22 de Maio de 1565, em que este concede ao seu arauto Manuel Teixeira que aí se estabeleça com essa finalidade. Esse documento, revelado por Sousa Viterbo, dispunha assim: «Eu el Rei faço saber a vós Juiz, Vereadores e oficiais da vila de Alenquer que havendo respeito a Manuel Teixeira, meu arauto, fazer na dita vila umas moendas para nelas fazer papel e a ser nobreza da terra, tenho por bem e me apraz que sejam dados a essa vila e em seu termo os mantimentos, canos, bestas e tudo o mais que lhe for necessário para a dita obra por seu dinheiro pelos preços e estado da terra (…)».[1]

Sendo, por norma, estes instrumentos jurídicos secos e despidos de sentimentos, não deixa de ser curioso que Esteves Pereira tenha encontrado nele «(…) a mais notável expressão acerca do enobrecimento do trabalho(…)»[2], quando o jovem monarca textualmente afirma: «E isto com attenção a ser nobreza da terra [Alenquer], como preza o trabalho e a indústria e sabe que uma e outra cousa effectivamente nobilitam».

Mas, à semelhança de outros, este documento, por si só, não garantia que o moinho houvesse sido construído e muito menos funcionado, tendo sido vários os autores que, legitimamente, levantaram essa dúvida. Sousa Viterbo, por exemplo, referindo-se a este engenho diz-nos que Manuel Teixeira o estabeleceu, ou pretendeu estabelecer, enquanto Raul Proença e António Anselmo, ao tratarem deste capítulo e na sequência do que escreveram relativamente ao moinho de Alenquer, afirmam que «A mesma dúvida subsiste. Chegaram sequer a funcionar estes moinhos?(…)»[3].

 Certo era que a sua memória perdurara na toponímia local e na identificação de alguns prédios, como por exemplo num dos expropriados em 1803 para a construção da Real Fábrica de Papel, onde se relaciona um conhecido como «O Moinho do Papel, que tinha duas pedras e lagar de azeite pegado…».

De igual modo essa referência foi acolhida na monografia oitocentista “Alenquer e o seu Concelho” de Guilherme João Carlos Henriques, o qual aí refere que «nas antigas margens do rio, hoje cobertas pelas do tanque, havia, ainda no meado do século passado uma pequena fábrica chamada, segundo Castro, o moinho do papel (…)»[4]. E Castro não terá sido o único dicionarista a referir-se a esse moinho do papel, pois o P. António Carvalho da Costa, na sua “Corographia Portugueza”, identifica uma «fonte perennal, que sendo hum olho de agua faz moer duas mós no moinho do Papel».

Também Pinho Leal no seu “Portugal Antigo e Moderno” menciona «uma pequena fábrica chamada Moinho do Papel e duas azenhas», mas é ele próprio quem aí nos diz ter lido Guilherme Henriques… Outra fonte não menos importante, reside na resposta do Prior de Santiago, Paulo Carneiro da Veiga, ao Inquérito de 1758, o qual a propósito do rio e das suas fontes cita um «Bufalhão do Papel». Mas continuava a faltar algo mais concludente, mesmo, definitivo.

E esse documento acabaria por aparecer, quando adquirido pela autarquia para o seu acervo histórico. Trata-se de uma carta datada de 1566, escrita pela vereação da Câmara  à donatária da vila, a rainha viúva D. Catarina, documento onde a edilidade grata e respeitosamente se refere ao «engenho de papel que agora se faz» e aos inconvenientes que o mesmo trazia pelo que se tornava necessário «tomar informações», entenda-se averiguar, tanto mais que tinham como «Certeza que em algumas partes se impediu fazerem-se semelhantes engenhos».

Esta última afirmação, para além de inédita, não deixa de ser surpreendente, como surpreendente é, também, o final da mesma carta:

«E afirmamos a Vossa Alteza que não nasce este nosso requerimento de ódio nem má vontade mas de justo temor, porque segundo o povo toma isto mal não será serviço de Deus nem de Vossa Alteza fazer-se tal obra. E quanto ao tanque nos Vossa Alteza manda que lhe não impidamos que será para moendas de pão ou azeite estamos prestes para lhe desembargarmos a obra dele e lhe daremos todo o favor e ajuda que em nos for sem embargo do pouco acatamento e temor que Manuel Teixeira teve à justiça, em tornar a obra sem lhe ser levantado o embargo, e pena que lhe era posta e amotinou este povo que com verem a água do Rio mudada e muito turva por Razão da Cal e os peixes da Coutada mortos em Riba d’água que lhe pareceu que já tinham a morte à porta. Desta sua vila d’Alanquer hoje xxV de maio 566 – Dos oficiais da Câmara d’Alanquer»[5].

Pelo que foi assim, com o povo amotinado, que o fabrico do papel chegou à vila de Alenquer, terra de fartas nascentes e rio caudaloso, com o imenso Tejo ali à porta, o qual, até ao advento do combóio (três séculos mais tarde), foi a verdadeira «estrada» para a grande capital que lhe consumia o papel produzido e de onde vinha, em quantidade, a matéria prima de então, o trapo, de preferência de linho e branco.

TRABALHO COMPLETO

I – Uma indústria que, tardiamente, chega a Portugal

II – O moinho de papel de Manuel Teixeira, na Alenquer quinhentista

III- Esclarecendo o que aconteceu na Ribeira do Papel, em Queluz

IV- Os primeiros tempos da Abelheira

V – Voltando a Alenquer, a fábrica do “Trapeiro” na Requeixada

VI – Da Real Fábrica de Papel de Alenquer a Lisboa e ao seu termo

VII- Ainda a Real Fábrica de Alenquer, a mais moderna ao seu tempo

VIII – Regressando à Abelheira e a Lisboa Moinho da Lapa

IX – A segunda vida da Real Fábrica de Alenquer

X – Alenquer – O último capítulo da vila papeleira

XI – Cronologia de Moinhos, manufacturas e fábricas de papel em Lisboa e na Baixa Estremadura (séc. XVIII/XIX)

XII – Pesquisas e Bibliografia

 

@José Leitão Lourenço (2019)
Mestre em História Regional e História Local
lourenco31051947@gmail.com

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