A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura (iii): Esclarecendo o que aconteceu na Ribeira do Papel, em Queluz

A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura (iii): Esclarecendo o que aconteceu na Ribeira do Papel, em Queluz

16/02/2019 0 Por hernani

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A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura

Das suas origens ao séc. xx (iii)

Esclarecendo o que aconteceu na Ribeira do Papel, em Queluz

RIBEIRA DAS JARDAS: ribeira que nasce na Serra da Carregueira, em Almornos (Almargem do Bispo), mudando de nome ao longo do seu percurso. Em Algualva-Cacém toma o nome de Ribeira das Jardas, e só a partir daqui se chama Ribeira do Papel. Quando desagua no Rio Tejo, em Caxias, já chega com o nome de Ribeira de Barcarena (Foto: blogue “Sintra Capital do Romantismo).

Mas, vejamos: Jacome Ratton, nome incontornável quando tratamos da história da nossa indústria, refere nas suas Recordações[1]  que perto de Sintra, no sítio que ficaria conhecido por Ribeira do Papel, adiante de Queluz, havia uma «pequena fábrica de Papel inferior (…) a qual trabalhava com huma só tina, e por piloens em rasão da falta de agoa». A esta informação acrescentaram Raul Proença e António Anselmo, na sua obra já citada, que «fôra fundada, como consta em documento manuscrito pela firma Henrique Schumacker & C.ª em 1775».

Escreveram, também, estes dois últimos autores que «no princípio do séc. XIX ainda existiam na Ribeira do Papel duas fábricas, uma das quais pertencia ao Barão de Quintela». Por sua vez, Gustavo de Matos Sequeira, no seu livro sobre a Abelheira[2], refere-se à fábrica aí fundada em 1791, data do «alvará» da Junta de Administração das Fábricas do Reino, como tendo sido a visitada por Ratton «…quando andou com a idéia montar cá uma oficina destas…», tendo desistido do seu aproveitamento devido à escassez de água, interrogando-se, por fim, se seria essa a fundada por Schumacker e C.ª em 1775 (veremos que não).

Ainda Sequeira, citando Acúrcio das Neves em “Variedades”[3] quando este relaciona as fábricas que existiam em 1813 e haviam logrado resistir às perturbações sociais resultantes das invasões francesas, no que respeita às do papel, afirma que no Distrito de Lisboa existiam as de Alenquer, «uma que então pertencia a Geraldo Venceslau Braamcamp e sócios e outra (a da Ribeira do Papel) que era então do Quintela»[4], um equívoco, pois nessa data, em Alenquer, só laborava a primeira, a Real Fábrica de Papel, e a Ribeira do Papel, como bem sabemos, corria «perto de Sintra», em «Rio de Mouro» ou «acima de Queluz», tudo nomes ou expressões para um mesmo local.

Para complicar um pouco quanto atrás se disse, o Inquérito Industrial de 1814 elaborado por comarcas, atribui à de Alenquer “3” fábricas de papel, que só poderiam ser a da vila, a da Azenha do Arrais, junto à Abelheira e a do Dr. Pedro de Oliveira no Rio ou Ribeira do Papel.

Sendo claramente incompleta e até contraditória a informação produzida sobre o que teria acontecido e funcionado na Ribeira do Papel, impunha-se indagar sobre o que efectivamente aí existiu, pelo que consultados os processos existentes da Junta do Comércio[5] apurámos o seguinte:

– Que em 7 de Agosto de 1775 Henrique Schumacker obteve autorização para instalar uma manufactura de papel no termo da Vila de Sintra, pelo que comprou e reedificou um engenho situado no Rio do Papel. Para essa sua manufactura pediu os mesmos privilégios concedidos à fábrica da Lousã pelo Régio Alvará de Julho de 1770 (e depois pelas Reais Resoluções de 29 de Julho de 1789 e 18 de Novembro de 1793) e a isenção de dízima por 10 anos. Posteriormente em atenção ao «ter feito avultadas despesas na reedificação do dito engenho de Papel que se encontrava inteiramente arruinado e inútil…» obteve nove condições, entenda-se privilégios, para o mesmo, entre elas o poder mandar vir de fora artífices, especificando as condições a que estes ficavam sujeitos de modo a impedir a sua deserção para outros engenhos, a não sujeição da fábrica aos ministros da vila de Sintra, a utilização de balança e pesos no seu armazém do trapo, a utilização de uma determinada marca e que os carregamentos para o armazém em Lisboa se fizessem sem guia, já que as marcas de água no papel impediriam o seu contrabando. Mostrava-se, ainda, o suplicante optimista pela abundância de trapo no local e de raspa de curtumes a utilizar na colagem.

Consultado um processo datado de 8 de Julho de 1811, em que um José Duarte, Mestre que foi da fábrica de Henrique Schumacker, se dirige à Junta do Comércio solicitando autorização para «erigir no local [Ribeira do Papel] uma fábrica em qualquer ponto, com seus filhos Inácio Duarte e Francisco Duarte (…) concedendo-lhe todos os privilégios» ficamos a saber que esta foi, efectivamente, a fábrica que veio a pertencer ao Barão de Quintela, uma vez que, nesse pedido, é o suplicante José Duarte quem o diz ao afirmar continuar «no mesmo exercício [de Mestre] até agora depois da Sociedade estabelecida entre o Barão de Quintela», servindo ele de administrador e director pelos seus grandes conhecimentos.

Juntos ao processo dois documentos confirmam as aptidões de José Duarte e a posse da fábrica pelo Barão de Quintela. O primeiro é assinado pelos filhos de Henrique Schumacker, indiciando a sua provável morte. O segundo, assinado por João Baptista da Silva, certifica que «na fábrica de papel sita no Rio de Mouro, na ribeira chamada do Papel cuja propriedade é do Barão de Quintela, se estabeleceu uma sociedade em que fui sócio Caixa desde 23 de Junho de 1792 até 31 de Dezembro de 1809, sempre ali residiu José Duarte como Fiel e Administrador e encarregado de toda a economia da mesma fábrica».

Sobre esta fábrica é ainda certo que pelo Inquérito de 1814 pertencia, então, ao Dr. Pedro Luiz de Oliveira.

– Que Francisco Joaquim Pereira e Sousa (e António Patrício) «proprietários de uma fábrica de papel e papelão no Sítio do Papel, termo de Sintra», em 1811, transferiram para Lisboa, Beco da Bebedola, Carreirinha do Socorro, a sua fábrica, em razão da maior abundância de água. Para essa nova fábrica requerera e obtivera António Patrício provisão da licença, pelo que o que agora «suplicavam» para a sua nova fábrica, já a funcionar, era que esta viesse «a gozar as mesmas isenções, privilégios e liberdades da atrás fábrica», o que lhes foi concedido a 12 de Setembro de 1811.[6]

Posto isto, somos levados a crer que esta seria a outra fábrica erigida em 1791, na Ribeira do Papel, a qual já não aparece relacionada no Inquérito de 1814, precisamente pelo motivo atrás mencionado.

Sobre este assunto resta dizer que com a revelação destes novos documentos, acreditamos ter ficado definitivamente esclarecido aquele que já se nos afigurava como o novo «mistério da estrada de Sintra», mais precisamente, o da Ribeira do Papel.


[1] – Jacome Ratton – “Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo, de Maio de 1747 a Setembro de 1810”, pág. 29/30.

[2] – Gustavo de Matos Sequeira – “A Abelheira e o fabrico de papel em Portugal: história de uma propriedade e de uma fábrica”, (s/nº. pág.).

[3] – José Acúrcio das Neves – “Variedades  – Sobre objectos relativos às Artes, Comércio e Manufacturas”, Lisboa Afrontamento, 1987,  reprodução do quadro relativo ao Mappa geral estatistico que representa as fabricas do reino no estado em que existiam nos primeiros tempos depois da ultima invasão francesa, de 18 de Fevereiro de 1813, elaborado pelos Corregedores das Comarcas – «Vila de Alenquer – De Geraldo Venceslau Braamcamp e Sócios – Progressiva».

[4] – Gustavo de Matos Sequeira – “A Abelheira e o fabrico do papel em Portugal”, (s/ nº. Pág.).

[5] – PT/AHMOP/JC/40 e 41 – Junta da Comércio; Processos referentes a indústrias; Papel.

[6]  – PT/AHMOP/JC/41 – Junta da Comércio; Processos referentes a indústrias; Papel. w

TRABALHO COMPLETO

I – Uma indústria que, tardiamente, chega a Portugal

II – O moinho de papel de Manuel Teixeira, na Alenquer quinhentista

III- Esclarecendo o que aconteceu na Ribeira do Papel, em Queluz – VOCÊ ESTÁ AQUI

IV- Os primeiros tempos da Abelheira

V – Voltando a Alenquer, a fábrica do “Trapeiro” na Requeixada

VI – Da Real Fábrica de Papel de Alenquer a Lisboa e ao seu termo

VII- Ainda a Real Fábrica de Alenquer, a mais moderna ao seu tempo

VIII – Regressando à Abelheira e a Lisboa Moinho da Lapa

IX – A segunda vida da Real Fábrica de Alenquer

X – Alenquer – O último capítulo da vila papeleira

XI – Cronologia de Moinhos, manufacturas e fábricas de papel em Lisboa e na Baixa Estremadura (séc. XVIII/XIX)

XII – Pesquisas e Bibliografia

@José Leitão Lourenço (2019)
Mestre em História Regional e História Local
lourenco31051947@gmail.com

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