“A Globalização da Complexidade” (ii): O pós-modernismo é uma nova etapa do Capitalismo

“A Globalização da Complexidade” (ii): O pós-modernismo é uma nova etapa do Capitalismo

30/01/2019 0 Por hernani

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Recensão critica da obra de Mike Featherstone

“A Globalização da Complexidade” (ii)

O pós-modernismo é uma nova etapa do Capitalismo
– Pós-modernismo e cultura do consumo –

“Os amantes das putas jovens São felizes, ágeis, sabidos;
Já eu tenho os braços partidos
Por querer abraçar as nuvens”
(Baudelaire, as lamentações de um ícaro)

 

Mike Featherstone

É a vez de Mike Featherstone citar Simmel para este expor que “o grande acúmulo de cultura objetiva na modernidade, coloca as pessoas diante de uma tarefa impossível, já que se tornara impraticável assimilar e sintetizar o conhecimento de modo significativo”. (INFELD, s. d.). Aquele conhecimento que “é perpetuamente construído e desenvolvido no seio das interacções e relações que se estabelecem…” (DIAS, 2004). Aquele conhecimento que é estimulado pelo valor dado ao que é percepcionado. Que, na «sociedade do conhecimento», está mais valorizado que o capital, que a matéria-prima ou que a energia. E que a sua gestão “é um processo articulado, sistemático e intencional…“ (LEMOS FIGUEIREDO, 2011).

A modernidade de Paul Virílio foi organizada por cinco motores: o «motor a vapor», a máquina que serviu a Revolução Industrial; o «motor de explosão», proporcionou o desenvolvimento do carro e do avião; o «motor eléctrico», favoreceu a electrificação; o «motor foguete», que permitiu ao homem escapar da atracção terrestre; e o «motor informático», que favoreceu a realidade virtual e modificou a relação com o real. (VIRÍLIO, 1998).
Voltando a Mike Featherstone, para quem a modernidade já indiciava a impossibilidade de os artistas, intelectuais e outros grupos envolvidos com a cultura continuarem a acreditar no seu projecto unificador; por isso o pós-modernismo. E “um dos primeiros pontos, senão o primeiro, que importa discutir a respeito do pós-modernismo é o de saber, não só «o que significa», mas também, sobretudo, em caso de significar algo, «qual o sentido daquilo que significa» (que se pressupõe ser diferente daquilo que é designado por outros conceitos e/ou paradigmas)” (TEIXEIRA, 1997).
Luis Filipe Teixeira traz-nos John Perreault para a discussão: “O pós-modernismo não é um estilo particular, mas um conjunto de tentativas para ultrapassar o Modernismo”. Heidegger aponta algumas reservas a essa saída da modernidade. “Se a modernidade se define como a época da superação, da novidade que envelhece e é logo substituída por outra novidade, num movimento imparável que desencoraja toda a criatividade ao mesmo tempo que a exige e impõe como única forma de vida – se é assim, então não se poderá sair da modernidade pensando em a superar. (…) Nietzsche vê muito claramente – já no texto de 1874 – que a superação é uma categoria tipicamente moderna e que portanto não é possível de poder determinar uma saída da modernidade” (TEIXEIRA, 1997).
Mike Featherstone expõe como principais, duas concepções sobre o pós-modernismo. Uma delas compreende o tempo presente como pós-moderno, num método cultural que, tendo superado a modernidade, tende a inviabilizar o plano moderno de “submeter a vida social à ordem e ao progresso”. A outra perspectiva, na qual se sente mais próximo, percebe o pós-modernismo como uma grandeza cultural reunida aos progressos da sociedade. Nesta última perspectiva, o tempo presente é retratado como portador de tendências globalizadoras intrínsecas, que provocaram, nos últimos tempos, o aumento do fluxo de informações, imagens, pessoas e todas as coisas em geral.
No entanto, ainda para Featherstone, esse fenómeno não levou a uma harmonia global que homogeneizasse todo o mundo. O localismo e a complexidade cultural mantiveram-se e, em alguns casos, ficaram até reforçados, em contraposição a esta tendência globalizante.
Voltemos a Featherstone e a Simmel: “A conseqüência de colocar as pessoas perante uma tarefa impossível é ficarmos expostos a um excesso de estímulos provocado “pelos milhares de adornos e itens supérfluos que abarrotam as nossas vidas e dos quais (…) não nos conseguimos livrar” (FEATHERSTONE, 1996).
“Não se deve compreender o pós-modernismo apenas como uma mudança localizada numa época, ou como uma nova etapa do capitalismo”, diz Featherstone. Ainda acrescenta que “o tempo em que vivemos não rompeu totalmente com o equilíbrio de forças e as interdependências que vinculam as pessoas na modernidade”. (FEATHERSTONE, 1996).
Por sua vez, a Pós-Modernidade privilegiaria a heterogeneidade e a diferença como forças libertadoras da cultura; teria afirmado o pluralismo contra o fetichismo da totalidade e enfatizando a fragmentação, a indeterminação, a descontinuidade e a alteridade, recusando tanto as metanarrativas, isto é, as filosofias e ciências com pretensão de oferecer uma interpretação totalizante do real, quanto os mitos totalizantes, como o mito futurista da máquina, o mito comunista do proletariado e o mito iluminista da ética racional e universal.
Apesar desta argumentação riquíssima também há ainda quem pense que o pós-modernismo só pode ser entendido como uma ruptura específica com o modernismo, com as instituições que são a sua pré-condição e que dão forma ao seu discurso: primeiro, o museu; depois, a História da Arte; e, finalmente, num sentido mais complexo, porque o modernismo depende de sua presença e de sua ausência, a fotografia.
No entanto, é a modernidade onde as sociedades industrializadas enfatizam o visível e o material; onde a materialidade das coisas é também o suporte de diversos discursos, uma espécie de cápsula de sentidos e de práticas muito diversas. “Promovem o desenraizamento, a destruição, bem como a obsolescência dos objectos banais que continuamente produzem. A sua outra face é a da conservação material de alguns objectos, ligada a uma certa consciência da temporalidade e à ideologia individualista. (GUILLAUME, 1980 p. 25).
Guillaume ainda acrescenta: “Uma nova forma de paixão pelo passado parece atingir as sociedades industriais do Ocidente. Tudo é património: a arquitectura, as cidades, a paisagem, os edifícios industriais, os equilíbrios ecológicos, o código genético. O tema suscita um consenso, superficial mas bastante alargado, já que satisfaz sem grandes custos diversas atitudes nacionalistas ou regionalistas. (GUILLAUME, 1980 p. 39)
Diversas escolas de pensamento têm caracterizado a pós-modernidade com base no tão propalado esgotamento do movimento modernista, que dominou a cultura e a estética até final do século XX, assim, substituindo a modernidade. Victor Flores atribui idêntica importância à estética para além da modernidade. “Cabe-nos cada vez mais o papel de reconhecer a importância da presença da estética (e das suas diferentes artes) na programação de um mundo virtual”. (FLORES, 2001 p. 182).
Habermas cataloga o conceito de pós-modernidade como tendências políticas e culturais neoconservadoras, determinadas a combater os ideais iluministas, e que o único elemento favorável foi o de ter concebido o processo de incorporação dos princípios de racionalidade e hierarquia para dentro do público e da vida artística. Para Habermas o projecto moderno não está encerrado e que a universalidade não pode ser assim tão facilmente dispensada.
Baudrillard acredita que a modernidade terminou no final do século 20, a que se seguiu um período chamado de pós-modernidade, opinião que é partilhada com Lyotard, que entendia a modernidade como um contexto cultural assinalado pela mudança constante na perseguição do progresso. Sendo assim, a pós-modernidade representa, então, o apogeu desse decurso onde essa mudança se tornara o “status quo” e obsoleta a noção de progresso. Também que várias metanarrativas de progresso (ciência positivista, o marxismo e o estruturalismo) foram extintas como métodos de alcançar o progresso.
“De facto, quanto mais complexa for uma sociedade, mais ela comporta antagonismos, desordens, conflitos – mais deve ela comportar, para compensar esta fragilidade, uma relação comunitária de fraternidade espontânea e voluntária. Mas não há nenhuma garantia contra a fragilidade da complexidade a não ser na auto-regeneração permanente da própria complexidade”. (MORIN, 1984 p. 75).
Para Featherstone, a globalização e, com ela, o pós-modernismo são uma consequência da modernidade (FEATHERSTONE, 1996). A integração global pode ser fortalecida pela expansão da atividade económica”, num tipo de racionalização imaginada por Max Weber. Por este ou quaisquer outros motivos, há muito que esta “integração global” tem angariado adeptos e potenciado os mais carismáticos profectas de caris «messiânico», como se essa globalização fosse uma “paideia grega”. Como se estivesse “escrito nos céus” como uma ordem cósmica a que não se consegue escapar.
Comecemos pela «globalização» com um certo localismo regional amplo, isto é, confinada à Europa: “Sentimos que se está num momento de viragem em que é preciso ultrapassar o ronronar comodista dos discursos do costume e afrontar uma série de problemas que não podem ser adiados. (…) António Guterres declarou, em 2000, em entrevista ao jornal Público, que a questão federal tem de ser encarada sem hesitações: «Estou totalmente disponível – e acho que Portugal deve estar disponível – para discutir o modelo federal na Europa. Mas não um modelo federal num plano estritamente político e sem tirar as consequências no plano económico, o que seria inevitavelmente um modelo de esmagamento dos países mais fracos por países mais poderosos e ricos». (…) Um verdadeiro parlamento e um verdadeiro governo europeu, mas, ao mesmo tempo, a criação de um «centro de gravidade» com os países mais disponíveis para avançarem no sentido político determinado por um mecanismo da vanguarda europeia”. (COELHO, 2004 p. 76).

Mas, esta confinação europeia não era suficiente; havia que ir mais além. E começa a surgir a ideia global mais «globalizadora», desculpem esta prolixidade. “Há quem sustente que a ligação da Europa a um modelo de ordem internacional potenciador da criação de uma sociedade internacional é um precipitado histórico recente. Robert Kagan, ao proclamar que «os americanos são de Marte e os Europeus são de Vénus», esclarece que essa diferença de cultura estratégica não tem raízes biológicas ou etno-culturais; é, para ele, uma pura questão de poder. De forma crua, escreve: «a força militar americana produziu uma propensão ao uso dessa força; a fraqueza militar da Europa produziu uma aversão perfeitamente compreensível ao exercício do poder militar». E sentencia: «os europeus opõem-se ao unilateralismo em parte porque não têm capacidade para o unilateralismo». (PUREZA, 2003 p. 112).

A semente está lançada «à terra», e as opiniões chovem de todos os quadrantes, muitas vezes com um sentimento de conformismo. “… podemos definir globalização como o processo que tem conduzido ao condicionamento crescente das políticas económicas nacionais pela esfera megaeconómica, ao mesmo tempo que se adensam as relações de interdependência, dominação e dependência entre os actores transnacionais e nacionais, incluindo os próprios governos nacionais que procuram pôr em prática as suas estratégias no mercado global” (MURTEIRA, 2003 p. 54).
Algumas vezes a enquadrar uma evolução histórica que se deseja como natural. “O mais decisivo acontecimento no início da Idade Moderna foi a descoberta da América, em 1492. Outro acontecimento irá de igual modo assinalar o seu termo iminente: o lançamento das bombas atómicas no Japão, em 1945. Entre estas duas datas, a história da humanidade foi o projecto de alargar o controlo humano sobre o espaço, o tempo, a natureza e a sociedade. O agente central deste projecto foi o Estado-Nação trabalhando com e através da organização capitalista e militar. Isto deu uma forma característica à vida dos povos e à passagem das gerações. Mas o culminar deste projecto na unificação do mundo foi também a sua dissolução. Com o chegar ao fim da época, desenvolveramse os indícios de que estávamos passando para uma nova idade. Começou por não se reconhecer aquilo de que tratava. A Guerra Fria, os Três Mundos, o homem a desembarcar na Lua, em 1969, a aldeia global electrónica, o triunfo dos Estados Unidos, o colapso da União Soviética, em 1991, e por fim o aquecimento generalizado da Terra, já não eram sinais de uma modernidade triunfante, mas de uma nova globalidade. Em 1980, «globalização» tornou-se a palavra-chave. Em 1990, reconheceu-se amplamente que a Idade Moderna tinha chegado ao fim e que a Idade Global estava a começar” (ALBROW, 1997 p. 7).

A tão propalada chegada da Idade Global, como se da Terra Prometida se tratasse, também colocou algumas dúvidas a muita gente. “A unificação mundial é conflituosa na sua essência; suscita cada vez mais o seu próprio negativo: a balcanização. Ela destrói as diversidades culturais, o que desencadeia em reacção os fechamentos que tornam impossível uma comunidade planetária. Os antagonismos entre nações, entre religiões, entre modernidade e tradição, entre democracia e ditadura, entre ricos e pobres, entre Oriente e Ocidente, entre Norte e Sul, alimentam-se mutuamente, agravando-se devido aos interesses estratégicos e económicos antagónicos das grandes potências”. (MORIN, 2001 p. 237).
Apesar deste pessimismo, Morin não nega o inevitável: “Embora o futuro seja invisível e seja necessário esperar o inesperado, podemos analisar o sentido dos processos actuais e prever três grandes eventualidades: o advento de uma sociedade-mundo; o advento das metamáquinas; o advento de uma meta-humanidade.” (MORIN, 2001 p. 241).
E a «sociedade-mundo», as «metamáquinas» e a «meta-humanidade» aí estão, numa intenção que não é nova; novidade é a surpreendente proposta da sua consumação até às últimas consequências. Daniel Estulin, um jornalista russo, há muito radicado no Canadá, levou cerca de duas dezenas de anos a investigar todas as tramas e segredos que envolvem o «Clube Bilderberg». O seu registo tornou-se um «best-seller» traduzido em 34 línguas e publicado em mais de 50 países.

 


Lisboa (Universidade Lusófona), 3 de Maio de 2011

I – A Modernidade é um projeto da Revolução Industrial  – 

II- O Pós-modernismo é uma nova etapa do Capitalismo  –  VOCÊ ESTÁ AQUI

III – A Idade Moderna chegou ao fim e está aí a Idade Global  

IV – O Clube Bilderberg é um Governo Mundial Único  –  (a 20/2/2019)

V – Os Descobrimentos Portugueses foram a primeira Globalização Moderna  –  (a 25/2/2019)

VI – O posicionamento da Cultura na Hipermodernidade  –  (a 1/3/2019)

VII – A Cultura do consumismo na pós-modernidade  –  (a 10/3/2019)

VIII – A passagem da «escrita» para a «imagem» na Pós-modernidade  –  (a 15/3/2019)

IX – A Hipermodernidade, o pós-humano e a chegada do Cyborg   –  (a 20/3/2019)

X- A Modernidade é a industrialização da guerra  –  (a 25/3/2019)

XI -Bibliografia

 

Hernâni de Lemos Figueiredo
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2011)

Programador Cultural

hernani.figueiredo@sapo.pt

965 523 785

 

 

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