Oh Filoxera dum raio!…

Oh Filoxera dum raio!…

08/01/2000 0 Por hernani

Oh Filoxera dum raio!…

O Visconde de Chanceleiros arruinou a sua vida. No entanto, o seu exemplo frutificou e, por todo o lado, as novas vinhas nascidas do bacelo americano cresceram sadias e produtivas e o país deve-lhe a salvação da sua principal riqueza

Visconde ChanceleirosUma noite dessas, quando o “Zé Pestana” já apertava, lá para as cinco da madruga e com aquele “à vontade” próprio de quem está já a desejar o merecido descanso e que nem o trabalhar por turnos há mais de trinta anos consegue disfarçar, ouvi a minha colega Lourdes Conde barafustar com o “maldito computador” qualquer coisa como “Óh filoxera dum raio…”. Aí, veio à memória essa praga terrível que, há mais de cem anos, assolou os vinhedos portugueses, e o homem, Visconde de Chanceleiros, que se arruinou para debelar a epidemia e que foi idolatrado por todos os vinhateiros portugueses. Mas afinal o que é a filoxera, qual a sua origem, como se propagou e como se conseguiu neutralizá-la?
A filoxera é uma doença da vinha, causada por um insecto com o mesmo nome. Insecto “hemíptero” (possui uma armadura bocal do tipo picador-sugador), é amarelo ou ocre-escuro, muitas vezes esverdeado ou amarelo-avermelhado, e que tem de comprimento 0,3 a 1,2 m/m. Vive exclusivamente na vinha, aparecendo a forma de asas no fim do verão. Os ovos são depostos pela fêmea na página inferior das folhas, particularmente no ângulo das nervuras. Destes ovos nascem, no fim do Outono, machos e fêmeas que não possuem asas nem peças bocais, os quais procuram as partes mais rijas da cepa para aí depor os ovos.
Na Primavera, esses ovos dão origem a insectos sem asas, com rosto bem desenvolvido, que, descendo para a terra, procuram as raízes das filoxeras radicícolas. Estas, com as suas picadas, determinam nodosidades da raiz e, pouco a pouco, a desnutrição completa da planta. Durante o verão, alguns insectos radicícolas abandonam as raízes, sobem à superfície e, mediante uma muda, transformam-se na forma alada que, no fim do Verão, começa a postura.
Sobre a planta, o ataque desenha-se em dois aspectos: na parte aérea (na folhagem, com a formação de galhas que se acumulam na parte inferior) e na parte subterrânea, com a formação de nodosidades nas raízes mais finas e de tuberosidades nalgumas raízes de maior grossura, aptas em condições normais à ramificação e emissão de radículas.
As vinhas iam-se abaixo porque lhes faltava, ao cabo de pouco tempo, o sustento e o suporte radicais. (O clima mais quente não fazia mais do que exagerar o mal). Foi da América do Norte que veio para a Europa esta praga, a mais devastadora que a história da viticultura regista. (Entre 1858 e 1863).
Sebastião José de Carvalho, nasceu em Alenquer, essa Pátria de muitos heróis e notáveis como Damião de Goes, Pêro de Alenquer, D. Duarte, Palmira Bastos, Luís de Camões (naturalidade reivindicada por três terras: Lisboa, Coimbra e Alenquer), e muitos outros. Foi 1º. Visconde de Chanceleiros, (o título de Visconde foi concedido por D. Luís I, por decreto-lei de 13-9-1865), par do reino, Ministro e Secretário de Estado, Plenipotenciário português para a celebração do tratado com a Bélgica, Governador Civil de Lisboa, Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, grã-cruz de Leopoldo da Bélgica e da Imperial Ordem da Rosa (Brasil).
Deputado, pela primeira vez, em 1857, por Torres Vedras e, mais tarde, por Torres Novas e Alenquer. Em 1871 Governador Civil de Lisboa e no mesmo ano, Ministro das Obras Públicas, no Ministério do Duque de Ávila e Bolama. Foi dos mais distintos oradores parlamentares do seu tempo. “Ouvindo as palavras daquele orador… fica um auditório de centenas de pessoas, inteiramente cativo e avassalado pela sua privilegiada inspiração”.
Tinha o curso de Engenharia e, sendo um dos maiores lavradores do concelho de Alenquer, vendo a agressividade desta doença e a incapacidade dos processos de combate então utilizados, dedicou-se afincadamente a este problema, tornando-se num lutador sempre alerta na refrega do combate à filoxera.
Reconhecido o ataque radicular como o mais sério, as defesas contra a praga tomaram logicamente um caminho: impedir a vida do insecto fixado sobre as raízes. Submerge as suas vinhas de várzea com água que recolhe dos regatos vizinhos; faz infiltrações de anidrido sulfuroso junto das raízes das cepas, mas nada resulta e os efeitos do terrível mal agravam-se.
Como último recurso, e aproveitando a maior resistência do sistema radical das videiras americanas, arranca o que resta das suas vinhas e reconstrói os seus vinhedos a partir de bacelos americanos, e obtém novos vinhedos, não já de pé franco, mas constituídos por cepas, indivíduos mistos, com parte subterrânea americana e parte aérea europeia, atitude que “foi classificada de arrojo sem limites, e todos viram nela um completo desastre”. No entanto ao fim de algum tempo, surgem os claros sinais de que a praga da filoxera estava debelada.
O Visconde de Chanceleiros arruinou a sua vida. No entanto, o seu exemplo frutificou e, por todo o lado, as novas vinhas nascidas do bacelo americano cresceram sadias e produtivas e o país deve-lhe a salvação da sua principal riqueza. Graças a ele a Agronomia saiu triunfantemente desta dura prova, pois em parte alguma, na cultura organizada, o ataque filoxérico é hoje aquele poderoso inimigo que foi no último quartel do século passado.
Residia habitualmente na sua Quinta do Rossio, concelho de Alenquer, onde nasceu a 11-1-1835, passando apenas em Lisboa o tempo das sessões da Câmara Alta. Morreu na mesma quinta a 14-7-1905.
Este alenquerense que viu a produção das suas vinhas decair drasticamente, passando das 5.000 pipas anuais, para as 2.000 e depois para as 100, nos últimos anos da sua vida, está imortalizado, com um retrato no Salão Nobre da Câmara Municipal de Alenquer, junto a outros notáveis – Luís de Camões, Pêro de Alenquer, Damião de Goes e el-rei D. Manuel I. (estes quatro, com bustos em gesso).
Publicado no “Meteoro” nr. 27 de Março/1997,


Hernâni de Lemos Figueiredo
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)

Director do Jornal D’Alenquer

in Jornal D’Alenquer, 1 de Agosto de 2000, p. 26


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