Estamos a caminho da barbárie?

Estamos a caminho da barbárie?

05/02/2007 0 Por hernani

Referendo sobre o aborto
Estamos a caminho da barbárie?

Como civilização humanista, se já é deplorável equacionar-se a hipótese do referendo, tanto mais o é se este der como resultado a liberalização do aborto; é que o direito à vida sobrepõe-se ao direito à livre escolha, e inverter esta ordem é um retrocesso civilizacional grave, é entrar-se na barbárie. Como dizia Platão, “castiguem as crianças para não terem de punir os adultos”.

A VIDA começa na concepção

A VIDA começa na concepção

Vou começar este trabalho precisamente pela sua conclusão: no referendo do próximo dia 11 de Fevereiro, vou votar NÃO, porque acredito que a VIDA é o primeiro de todos os direitos do ser humano e porque a presumida solução das dificuldades duma pessoa não poderá passar pela extinção de outra pessoa.
Os apoiantes do SIM afirmam que o embrião com 10 semanas não é um “ser humano” porque nada faz de importante ou de sério, porque não tem “correcta associação de pensamentos”, por isso “não tem direitos”. Nesta lógica, um deficiente mental, um idoso demente, um doente em coma, ou as muitas pessoas que têm deficiência, de acidente ou de nascimento, poderão deixar de ser considerados “seres humanos”, uma vez que não têm correcta “associação de pensamentos”. Há pessoas que pensam menos que um embrião com 10 semanas mas, felizmente, a Lei protege-as. O embrião é um bebé, é um ser humano. É uma pessoa que cresce no ventre da mãe, que “nasce e que progressivamente se vai tornando cada vez mais pessoa.
O referendo vai dizer-nos que uma mulher que aborte às 10 semanas é diferente de o fazer às 11 semanas, isto é, às 10 semanas a morte do seu filho é legal ao contrário de sê-lo às 11; aí já é uma criminosa e terá que se haver com a Justiça. Para uma mulher, ser culpada da morte do seu próprio filho às 10 ou às 11 semanas não será a mesma coisa?
Porque é que até às 10 semanas, médicos e mulheres não são criminosos, e às 11 passam ambos a sê-lo? Não conhecemos nenhum fundamento científico ou ético para o estabelecimento de qualquer prazo: ou o bebé é um ser humano e TEM SEMPRE DIREITO À VIDA, ou é tido como um objecto que é parte integrante do corpo da mãe e sobre o qual esta tem sempre todos os direitos. No entanto, a própria mulher também considera que o embrião não faz parte do seu corpo mas que está lá “alojado”, e não diz “tenho aqui um embrião” ou “o meu corpo está grávido”, mas sim “estou grávida” ou “estou à espera de um filho”. A mulher tem o direito de usar o seu corpo mas não tem o direito de dispor do corpo de outrem; o bebé não é um acessório mas sim um ser humano único e irrepetível.
Outra contradição neste referendo é que o pai da criança fica excluído da decisão de vida ou de morte do seu próprio filho: a mulher pode matar o filho de um homem contra a vontade dele. No entanto, se a mulher decide ter a criança, a lei obriga o pai, mesmo contra a sua vontade, a dar-lhe nome, pensão para alimentos, e mais uma série de obrigações.
Na campanha do SIM, é visível o envolvimento dos partidos ditos de esquerda, principalmente do Partido Socialista, que politizou fortemente este referendo e o transformou numa batalha política, e que está fortemente empenhado em ganha-la. E o que me parece interessante é verificar que para eles o aborto é um sinal de progresso, de modernidade, enquanto a pena de morte é de atraso. É que para eles há penas de morte merecidas e outras imerecidas.
E muitos deles, que agora se encontrem unidos no “sim” ao aborto, são os mesmos que se encontram no “não” ao sofrimento dos animais. Santa hipocrisia! Vejamos esta contradição denunciada por Bagão Félix: «Se se destruir um ovo de cegonha, um morcego do Alqueva ou um lince da Malcata pode-se ser punido com uma pena de prisão até três anos. Se o SIM for aprovado, na ecologia humana, a que mais importa preservar, não há qualquer punição».
Estaremos em presença de “Uma Cultura de Morte”, conforme José António Saraiva defendeu no semanário SOL, de 14 de Outubro passado? “No ponto em que o mundo ocidental e o país se encontram, com a população a envelhecer de ano para ano e o pessimismo a ganhar terreno, não seria mais normal que a esquerda se batesse pela vida, pelo apoio aos nascimentos e às mulheres sozinhas com filhos, pelo rejuvenescimento da sociedade, pelo optimismo, pela crença no futuro?”
“Rejuvenescimento da sociedade”, “luta pela vida”, “apoio aos nascimentos e às mulheres sozinhas com filhos” e “um sinal de optimismo, pela crença no futuro” são estratégias que não passam pela cabeça dos governantes deste jardim à beira-mar plantado, pois já há algum tempo que somos presenteados com noticias do fecho de maternidades e urgências hospitalares; tudo sustentado em insuficiência de verbas públicas. No entanto, há dinheiro público para financiar abortos nos hospitais públicos ou em clínicas privadas. PRIVADAS, talvez aqui a chave cifrada para esta “Cultura de Morte” que se pretende com o referendo do próximo dia 11.
Enquanto o NÃO privilegia a defesa da VIDA, o SIM dispara as suas baterias com o argumento de que a prisão é uma pena desproporcionada para o acto de abortar. Como diz Aleixo, “Para a mentira ser segura / e atingir profundidade, / deve trazer à mistura / qualquer coisa de verdade” No entanto, uma mentira, mesmo que a digam milhares de pessoas, não deixa de ser uma mentira, e a sua repetição não a transforma numa verdade.
Segundo Aristóteles “a única verdade é a realidade”. E qual é a realidade que este referendo nos proporciona?
– A Ciência diz que um embrião com 10 semanas já contém vida;
– O aborto é um acto radical para com a criança;
– A VIDA é o primeiro de todos os direitos do ser humano;
– O direito à vida sobrepõe-se ao direito à livre escolha;
– O aborto nunca é uma vantagem para a mulher;
– O pai da criança fica excluído da decisão de vida ou de morte do seu próprio filho;
– Às 10 semanas, médicos e mulheres não são criminosos, mas às 11 passam ambos a sê-lo;
– Se o SIM vencer, quem sorrirá são os médicos, as pessoas com fortes interesses económicos na prática do aborto;
– O Partido Socialista transformou este referendo numa batalha política, e está fortemente empenhado em ganhá-la;
– O Aborto é uma Solução Final do tipo das outrora defendidas pelos socialistas alemães e pelos socialistas soviéticos;
– O SIM abre as portas ao grande negócio das Clínicas Privadas Abortivas;
– Na Europa, hoje discute-se a limitação da prática de aborto e não a sua liberalização;
«Abortar por opção quando já bate um coração? Não».
Gentil Martins é deveras critico quando afirma que «as pessoas que transformam o aborto num acto normal, sem nenhuma causa específica, não merecem o respeito que outras merecem», e é peremptório quando afirma que «estamos perante um problema civilizacional”. «No dia 11 vamos decidir em que sociedade queremos viver e se não podemos admitir um retrocesso em matéria de direitos adquiridos», numa alusão à defesa da vida, a partir do primeiro dia.
Corremos o risco de regredirmos no processo civilizacional, até à Antiguidade, onde, para manter as lutas épicas com Atenas, Esparta seleccionava à nascença os seus guerreiros; assim, os recém-nascidos, se não fossem suficientemente robustos, o “Conselho de Anciãos” tratava de os despenhar nos rochedos. Agora, se o SIM vencer, a história repete-se: se o embrião tiver menos de 10 semanas, os penhascos estão à sua espera; se tiver 10 semanas e meia, aí será salvo da morte e, com certeza, dará um valente guerreiro, isto é, um trabalhador responsável e um pagador de impostos exemplar.
No referendo do próximo dia 11 de Fevereiro, vou votar NÃO, porque acredito que a VIDA é o primeiro de todos os direitos do ser humano e porque a presumida solução das dificuldades duma pessoa não poderá passar pela extinção de outra pessoa. E isto porque acredito no que diz a Ciência: que um embrião com 10 semanas já contém vida, que já tem um coração que bate desde os 18 dias; que já tem actividade cerebral, visível num electroencefalograma desde as 6 semanas, que já possui o código genético que o acompanhará por todo o seu ciclo de vida, e que é sensível à dor.
E vou votar NÃO, também porque penso que a mulher já está suficientemente bem defendida, na lei actual, contra aqueles casos de maior perigosidade, tanto por a gravidez ser ocasionada por violação, como por má deformação do feto, como ainda por a gravidez pôr em causa a sua saúde física ou psíquica.
Mas também vou votar NÃO, porque considero o aborto como um acto radical para a criança, porque a mata, porque não lhe dá quaisquer direitos, porque não lhe dá opção alguma;
Igualmente vou votar NÃO, porque considero o aborto como uma Solução Final, do tipo das outrora defendidas pelos socialistas alemães contra o povo judeu, e dos socialistas soviéticos contra o povo russo;
Também vou votar NÃO, para lembrar aos políticos portugueses que a Constituição portuguesa obriga à defesa dos mais frágeis e vulneráveis.
Finalmente, vou votar NÃO, porque considero que o aborto nunca é uma solução para a mulher; antes pelo contrário, representa sempre um risco e um trauma físico e psíquico para si;
Como civilização humanista, se já é deplorável equacionar-se a hipótese do referendo, tanto mais o é se este der como resultado a liberalização do aborto; é que o direito à vida sobrepõe-se ao direito à livre escolha, e inverter esta ordem é um retrocesso civilizacional grave, é entrar-se na barbárie.
Como dizia Platão, “castiguem as crianças para não terem de punir os adultos”. E aqui os adultos não são tanto as mulheres mas sim os médicos, as pessoas com fortes interesses económicos na prática do aborto, as pessoas que induzem a esta prática e os políticos que optam pelo menos trabalhoso, e negligenciam as medidas positivas de combate às causas do aborto.

FOTO: – http://cristaosprofamilia.wordpress.com/2013/01/15/o-aborto-e-o-grito-silencioso/

Hernâni de Lemos Figueiredo

in Jornal D’Alenquer (on line), 5 de Fevereiro de 2007 (Editorial)
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2007)
director do Jornal D’Alenquer

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