A Herança de Alexandre Soljenitsyne

A Herança de Alexandre Soljenitsyne

05/08/2008 0 Por hernani

Foi hoje a enterrar o “coveiro” do comunismo soviético

Estaline deportou-o para um campo de concentração siberiano; Brejnev deu-lhe ordem de expulsão do país. Morreu na sua casa em Troïtse-Lykovo, em Moscovo, aquele que é considerado como o símbolo das vítimas do comunismo soviético. “Soljenitsine foi o critério da nossa vida, ele foi o nosso Homero”.


ALEXANDRE SOLJENITSYNE foi sepultado esta manhã, em MOSCOVO, no Mosteiro de Donskoy, junto de várias outras figuras ilustres da sociedade russa, cerimónia em que participou Dimitri Medvedev, o actual presidente da Rússia.
O mundo culto ficou consternado quando soube da notícia difundida pela agência ITAR-TASS, citando o próprio filho do escritor, Stepan, de que Alexandre Soljenitsyne, de 89 anos, tinha falecido, na noite de domingo, por insuficiência cardíaca aguda.
Morreu na sua casa em Troïtse-Lykovo, em Moscovo, aquele que é considerado como o símbolo das vítimas do comunismo soviético.
(Alexander Solzhenitsyn, prisioneiro. Foto publicada in Archipiélago Gulag)
Soljenitsyne que foi agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 1970, foi privado da cidadania russa em 1974 e expulso do país; viveu depois na Suíça, Alemanha e Estados Unidos, até poder regressar à Rússia em 1994, após o fim da União Soviética. Apesar de tudo o que sofreu com as sanções impostas pelo regime comunista, poderá dizer-se que Soljenitsyne teve sorte, pois poderia ter sido eliminado com um tiro, um envenamento ou um qualquer outro modo sofisticado de que a policia politica soviética era fértil, ou então por um qualquer julgamento-fantoche que o empurasse para a forca, como sucedeu a muitos outros intelectuais russos naquela época de pesadelo.
Realmente Solzhenitsyne ganhou fama mundial por, através da literatura, ter denunciado as atrocidades cometidas, pelas autoridades soviéticas, nos campos de concentração, para onde deportava os que considerava ser os inimigos do regime comunista.
ALEKSANDR ISAYEVICH SOLZHENITSYN nasceu em Kislovodsk, uma cidade do Cáucaso Norte, no dia 11 de Dezembro de 1918. Foi “um homem com um destino único, um dos primeiros a denunciar em voz alta o carácter desumano do regime estalinista”, declarou o ex-presidente soviético, Mikhail Gorbatchev, o pai da Perestroika.
Aleksandr Solzhenitsyn foi estudante de matemática, na Universidade_Estatal_de_Rostov. Em simultâneo estudou, por correspondência, no Instituto de Filisofia, Literatura e História, de Moscovo. Durante a Segunda_Guerra_Mundial foi comandante de uma companhia de artilharia do Exército Soviético, obtendo a patente de capitão e sendo condecorado em duas ocasiões.
Semanas antes de terminada a contenda mundial, por em carta a um amigo fazer alusões “menos recomendáveis” sobre Estaline, foi preso pelos agentes da policia politica e condenado a oito anos num campo de trabalhos forçados, seguidos por exilio interno perpétuo. A primeira parte dessa pena foi cumprida em vários campos de trabalhos forçados; inicialmente num “instituto de pesquisas”, especialmente dedicado a cientistas e intelectuais. Dessa vivência surgiu o seu primeiro livro “O PRIMEIRO CIRCULO”, publicado no exterior da ex-URSS em 1968.
Em 1950 foi transferido para um “CAMPO ESPECIAL”, em Ekibastuz, Cazaquistão, dedicado a prisioneiros políticos, onde foi pedreiro, mineiro e metalúrgico. Foi o suficiente para o inspirar para “UM DIA NA VIDA DE IVAN DENISOVICH”, publicado em 1962. Kol-Terek, no sul do Cazaquistão foi o “paraíso” onde, em 1953, deu inicio à pena de “exilio perpétuo”.
Após a cura de um cancro e depois do regresso à Rússia europeia, Alexandre Soljenitsyne foi professor em escolas secundárias onde, durante a noite, escrevia em segredo. Entre 1962 e 1973 escreveu aquela que é a sua obra mais conhecida e que lhe valeu o Prémio Nobel da Literatura. “ARQUIPÉLAGO GULAG”, 1800 páginas sobre a vida desses campos de concentração, presenciada por si enquando esteve lá prisioneiro. Este livro publicado no ocidente em 1973 é certamente a mais significativa “obra-denúncia” de como funcionavam os “campos de concentração” e os “campos de trabalho forçado” na antiga União Soviética, nos tempos de Josef Estaline.
“GULAG”, quer dizer “Administração dos Campos de Trabalho Correctivo“, ARQUIPÉLAGO relaciona-se com o  sistema desses “Campos de Trabalho” espalhados por toda a União Soviétiva como uma enorme corrente de ilhas.
Na verdade, GULAG  era um tenebroso sistema de para presos políticos da ex-União Soviética, que funcionou desde 1918 até 1956, e onde foram aprisionadas milhões de pessoas, a quase totalidade delas vítimas das perseguições de Estaline.
Nestes campos de concentração, que se disseminavam por toda a ex-União Soviética, mais intensamente na Siberia e na Ucrânia, as condições de trabalho eram bastante penosas e incluíam a fome, o frio, o trabalho intensivo,  de características próximas da escravatura, e guardas prisionais desumanos;  destinavam-se unicamente para silenciar, torturar e eliminar opositores ao regime. Estima-se que nos GULAGS tenham morrido cerca 56,6 milhões de pessoas.
Segundo Stéphane Courtois, editor de “O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO: CRIMES, TERROR, REPRESSÃO”, “os regimes comunistas tornaram o crime em massa numa forma de governo”.
O desaparecimento  de Alexandre Soljenitsine originou o mais profundo pesar em todo o mundo e suscitou declarações emotivas de todos os quadrantes sociais, incluindo de gente anónima: “Com o desaparecimento de A. Soljenitsyne o mundo perde um resistente, um herói da luta pela liberdade”;  “Naqueles tempos de enorme confrontação, Soljenitsyne trouxe-nos o lado absolutamente negro daquele comunismo e da sua indústria carcerária, que então nos tentavam impingir”; “Sobre a realidade da brutal repressão, que era praticada na felizmente já extinta URSS, onde foi colocada em prática a forma mais nefasta e execravel de governação algum dia existente no nosso planeta, o comunismo, uma verdadeira multinacional do crime, que Moscovo exportou para todos os continentes”; “Ele esteve no GULAG. Os livros de Soljenitsyne têm a força que têm por serem escritos na primeira pessoa. Ele esteve lá”; “Ele permitiu a muita gente, e a mim também e à minha geração, olhar a nossa história de outra forma e ter uma outra perspectiva dos acontecimentos da época soviética”; Uma mulher lembra os tempos em que ler as obras do autor era um exercício clandestino: “Nós líamos Soljenitsyne em segredo, pois era proíbido lê-lo; mas era uma sensação, uma espécie de antecipação da liberdade… Liberdade e Soljenitsyne significavam a mesma coisa”; “Lembrar Soljenitsyne é também lembrar os mais de 40 milhões de pessoas que entre 1932 e 1953 morreram nestes “campos de trabalho”; “Soljenitsine foi o critério da nossa vida, ele foi o nosso Homero”!…
Toda a história da vida de Soljenitsyne é uma prova de coragem extraordinária. Apesar de ter passado pelos GULAGS ele nunca perdeu a esperança e a fé de um melhor futuro para a Rússia.
“Os democratas reformadores dos anos 90 não deram ouvidos à opinião de Alexandre Soljenitsyne”, disse  agora Guennadi Ziuganov, dirigente do Partido Comunista da Rússia. O mesmo Alexandre Soljenitsyne exclamou uma vez que “o mundo tentou compreender-me, mas acabou por não o conseguir”. Mas, a verdade é que a sua obra inviabiliza que alguém diga que não se sabia o que se estava a passar na Rússia profunda, pois enquanto outros se calavam, por conveniencia ou cobardia, Soljenitsyne, através da sua obra literária, pôs a claro um regime infame.
No seu livro “LENINE EM ZURIQUE”, analisou pormenorizadamente, as origens deste totalitarismo, revelando o perfil do seu fundador, Vladimir Ilitch Lenin, a estruturação do Estado policial autoritário nos primórdios da União Soviética, a construção dos primeiros campos de concentração, as “KATORGAS”, onde foram feitos prisioneiros milhares de “inimigos da classe” que sofreram execuções sumárias e, ainda, a execução do Czar Nicolau II e de toda a família imperial russa.
Seguiu-se o livro “UM DIA NA VIDA DE IVAN DENISOVICH. Foi após a publicação deste livro que a sociedade soviética finalmente soube o que se passava com as pessoas que eram condenadas por crimes políticos. “PAVILHÃO DOS CANCEROSOS”  é outro onde Alexandre Soljenitsyne critica fortemente o sistema soviético.
Viu cair o muro de Berlim e terminar o imenso pesadelo que ele próprio denunciou. Teve “uma vida difícil, mas feliz”, disse Natálie, a sua mulher. “Morre o homem, fica a obra”. Para além da lição de história, fica também uma lição de vida; talvez seja necessário que passem vários anos para que o mundo compreenda a verdadeira grandeza desta figura ímpar da Liberdade

O seu trabalho literário derrubou o comunismo como ideologia reinante no espaço da antiga União Soviética e, não obstante a capacidade de resistência dessa ideologia sem rosto humano, hoje será impossível a sua restauração. Esta é a sua herança.

in Jornal D’Alenquer (on line), 5 de Agosto de 2008 (Editorial)
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2008)
director do Jornal D’Alenquer

 

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