Ghillaume abana o “nosso” Património

Ghillaume abana o “nosso” Património

30/05/2010 0 Por hernani

“A Política do Património”, de Marc Ghillaume
Ghillaume abana o “nosso” Património

“Conservação, consumo, comunicação, produção do saber decorrem do mesmo esquema fundamental; todas estas acumulações deixam um resto, essencial, cujo efeito induz a necessidade de novos progressos. E este ciclo indefinidamente repetido constitui o nosso último acesso a uma forma empobrecida e única do simbólico”.

(Marc Ghillaume)

“A Política do Património”, de Marc Ghillaume
Campo das Letras, Lisboa, 2003

 

Hoje iremos dedicar a nossa atenção ao livro “A Política do Património”, de Marc Ghillaume, que a editora Campo das Letras (2003) tem incluído na colecção Campo das Ciências. Nas palavras de Vitor Oliveira Jorge, que o apresenta, ele “é uma das mais perturbantes, densas e profundas obras (pelas suas implicações filosóficas gerais) já escritas sobre o tema do património” e que “pode inaugurar uma nova era de debate e de maturação desta temática em Portugal”.

“Inconsolável civilização (a nossa) que recusa a alma mas acumula os restos e os signos, que exclui, mas ao mesmo tempo quer tornar tudo visível”, afirma Marc Ghillaume. E eles aí estão à frente dos olhos, os signos, que não se conseguem ocultar, e que na sua relação dialéctica entre o elemento e a série, formam uma colecção, ou seja, o equivalente do “eu narcísico” do seu autor apontando continuadamente a ampliar a colecção.

Guillaume sustenta que, “se a melancolia é resultante da identificação narcísica do «eu» com o objecto abandonado, pode dizer-se que o melancólico ignora o que perdeu”, mostrando que há nas sociedades modernas um processo de repetição neurótico – uma espécie de fuga para a frente -, tanto na conservação como no consumo.

A colecção é uma face do consumo, e revela uma necessidade constante de colmatar um vazio do sujeito. “A repetição é um instinto de morte activado pelo luto, um desejo de aquiescência do Nirvana ocidental”. Por sua vez, a “Conservação” “constitui um “habitus” geral da nossa sociedade na relação com o tempo. Representa uma luta fracassada de antemão (e portanto jamais terminada) contra o tempo irreversível e seus efeitos”. Mas, a conservação “não constitui um sistema, é antes uma amálgama de elementos multívocos, com origens e lógicas diferentes”, conclui o autor.

Para Ghillaume, a conservação, quer seja deslocada ou memorial, é sempre artificial, pois encerra em si uma encenação, uma musealização, uma transformação do outro (coisa, ser vivo, pessoa), em objecto de observação de um sujeito observador. “A conservação procura colocar o presente em suposta continuidade com o passado, quando, paradoxalmente, a característica das sociedades modernas, homogéneas, é precisamente esse corte com o passado, com o heterogéneo, com o invisível. A política do património vive no paradoxo de permanentemente disfarçar, dissimular, o que radicalmente a constitui: esse corte que a conservação institucionaliza”, remata Ghillaume.

“Não é fácil resistir à política do património. Ela propõe, num mundo hiper-funcional, espaços de diversão que captam com demasiada facilidade todos os nossos lutos e todas as nossas nostalgias”, diz Vitor Oliveira Jorge. Mesmo que do passado ela não retenha senão fantasmas.

“A Política do Património” é uma obra a não perder.

Falta-nos falar do autor. Segundo a informação disponibilizada pela editora, Marc Guillaume nasceu na região de Aveyron, em 1940. Estudou na Escola Politécnica e na École Nationale de la Statistique et de l’ Administration Économique e doutorou-se em Economia em Paris, em 1966. Dois anos mais tarde obteve o título de “Agregado” das Faculdades de Direito e Ciências Económicas. Para lá da vida académica, tem desempenhado outros cargos, entre os quais membro do conselho científico da France Telecom, administrador do INSEE (Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Económicos) (1965), consultor científico na Direcção-Geral do Ensino Superior e da Investigação. É desde 1973 professor na Universidade de Paris IX – Dauphine. No âmbito do ensino, dedicou-se sobretudo à econometria, economia matemática, introdução aos métodos da pesquisa operacional. Na área da investigação, elaborou relatórios sobre a evolução dos sistemas técnicos e as inovações e artigos sobre o que designou a sociedade e, em particular, a cidade “comutativa”. Entre os seus livros, contam-se “Les Marches d’occasion et la dépréciation du capital” (1966), “Le Capital et son double” (1975), “L’ Impératif culturel” (1982), “L’ Empire des réseaux” (1999), para além de “A Política do Património” (2003), aqui falado, e que é o seu primeiro livro editado em Portugal.

Lisboa (Universidade Lusófona), Maio de 2010

 

Hernâni de Lemos Figueiredo
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2010)

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