Missa Brevis, de Jacob de Haan, na Igreja de São Francisco, em Alenquer

Missa Brevis, de Jacob de Haan, na Igreja de São Francisco, em Alenquer

12/05/2019 1 Por hernani

Missa Brevis, de Jacob de Haan, na Igreja de São Francisco, em Alenquer

Pouco importam as notas na música,
o que conta são as sensações produzidas por ela.

(Leonid Pervomaisky)


Neste domingo, dia 12 de maio de 2019, a Igreja de São Francisco, em Alenquer, recebeu a Missa Brevis em concerto de música sacro polifónica.

A SUMA, Sociedade União Musical Alenquerense, e o Grupo Coral Vozes Maduras, de Alenquer, mostraram esta obra composta em 2002, por Jacob de Hann, para coro e orquestra de sopros, em celebração do milénio do nascimento do Papa Leão IX. É a versão mais conhecida desde a original escrita em 1558 por Giovanni Pierluigi da Palestrina, para a “Missa Papae Marcello em homenagem ao Papa Marcelo II.

Como grande parte das missas renascentistas, ela consiste de cânticos, estruturados em latim e à base de textos bíblicos. Neste caso, a Missa Brevis é composta por seis: ”Kyrie”, “Gloria”, “Credo”, “Sanctus”, “Benedictus” e “Agnus Dei”.

O Mastro Paulo Santana, das Vozes Maduras, e o Maestro Nelson Jesus, da SUMA, montaram o concerto que este último dirigiu. Eram 16,00 horas quando a primeira parte do concerto se iniciou, com elevadas expectativas de todos. Foi uma parte com momentos de grande intensidade estimulada pela suavidade da música. Muito bonito. Excelente introito ao programa principal do concerto.

O primeiro tema ouvido, Ammerland, de Jacob de Hann, deu o tom ao que se seguia, com uma música cálida e linda quanto bela se tornou a atual região dos lagos, a primitiva zona pantanosa dos viquingues que motivou o compositor holandês.

O segundo tema, Adágio, de Tomaso Albinoni, é uma música neobarroca tão sublime que ficamos com a impressão que ela foi escrita por inspiração divina, nas palavras de um anónimo. E a Banda da SUMA sobe dar-lhe a performance necessária para exaltar o interesse do público presente.

Como terceiro tema, Meditation de Thaís, de Jules Massenet, uma ópera em três atos que retrata o Egipto na época romana e que conta a história do monge cenobita Athanael que tenta convencer Thais, uma cortesã de Alexandria devota de Vénus, para a Cristandade. Meditathion, a passagem mais famosa desta ópera, é apresentada normalmente como peça de concerto, e o solista da SUMA, Dinis Carvalho, em saxofone alto, executou-a magistralmente.

O quarto tema ouvido, Nessun Dorma, de Giacomo Puccini, é uma área do último ato da ópera Turandot¸ uma bela princesa da antiga China Imperial que decretou que ninguém dormisse naquela noite até se descobrir o nome do príncipe desconhecido, seu prometido noivo, depois deste ter dito que se mataria e a deixaria livre do compromisso se o seu nome não fosse descoberto até à manhã do dia seguinte. No início do terceiro e último ato da ópera, Calàfa da Tartára, o belo príncipe desconhecido, no jardim do palácio real canta “que ninguém durma! Que ninguém durma! Nem mesmo tu, oh Princesa…”. A Banda da SUMA apresentou o último solista deste concerto, Pedro Rodrigo, que em bombardino deu um toque de sortilégio a este ninguém dorme.

Foi a vez da entrada em cena do Grupo Coral Vozes Maduras, que “a capella” cantou o motete in Monte Oliveti. Este cântico existe desde século XIII, e o seu texto foi retirado dos Evangelhos de S. Mateus e S Marcos: “In monte Oliveti oravit ad Partem: Pater, si fieri potest, transeat a me calix iste”. No monte das Oliveiras, rezou ao Pai: Pai, se possível, afasta de mim este cálice. A partir do século XVI aparece cantado “a capella” como composição polifónica. A versão atual é a que Bruckner compôs por volta de 1848.

Banda e Coro apresentaram Ave Verum Corpus, uma poesia curta, de apenas cinco versos, de alta densidade mística, escrita no século XIV por São Thomas de Aquino, e musicada por Mozart em 1791. A sua origem remonta a 1264, ao Milagre de Bolsena, quando em plena missa, a Sagrada Hóstia no momento de ser partida deixa sair sangue que empapou tudo o que estava em seu redor. Os objetos milagrosos foram levados em grande procissão e depositados na Catedral de Santa Prisca. Ficou assim institucionalizado o dia de Corpus Christi. A partir daí foram criados vários hinos a consagrar tal festa, sendo o Ave Verum Corrpus o de maior destaque. Com o Ave verum corpus, natum de Maria Virgine (Salve verdadeiro Corpo nascido da Virgem Maria) os Católicos reconhecem a presença verdadeira de Jesus na Eucaristia.

Como sétimo e último cântico desta primeira parte, Coro e Banda exibiram Ave Maria. Incluída no poema épico A Dama do Lago, de Walter Scott, a Terceira música de Ellen ficou popularizada como Ave Maria quando Franz Schubert musicou a sua versão em latim.

No programa principal, agora sempre com a Banda e o Coro, a harmonia melódica dos seis andamentos da “Missa Brevis”, manifestamente percetível, e o equilíbrio entre as diversas vozes (soprano, alto, tenor e baixo), e entre estas e a orquestra proporcionaram uma estética agradável aos sentidos oníricos dos presentes, facilitados pelo local, um monumento emblemático de Alenquer, cuja carga mística e religiosa conferiu a este concerto as grandiosidade e solenidade devidas.

Nos diversos cânticos notou-se o exercício de frequentes mudanças de andamento, que eram conduzidas totalmente pela mutação do significado do texto, dando a sensação da sua maior importância em relação ao ritmo e à batida. Os baixos, bem fortes, foram bem audíveis, principalmente nos finais dos andamentos.

Kyrie (Kyrie eleison, Senhor tende piedade), foi o primeiro andamento desta segunda parte da Missa Brevis. O seu uso litúrgico começou no século IV com a comunidade cristã de Jerusalém, e no século V como litania no rito romano.

Como segundo andamento ouvimos Glória, anteriormente também conhecido como Cântico do Amanhecer. É um hino pascal, que os cristãos do Oriente começaram a cantar a partir do ano 400. Começa com uma louvação o Deus Pai (Glória in Excelsis Deo, Glória a Deus nas alturas). Segue-se a aclamação a Jesus Cristo como Cordeiro de Deus (Domine Deus, Agnus Dei, Filius Patris). Prossegue com uma referência ao Espírito Santo (cum sancto Spiritu, in gloria Dei Partis, com o Espírito Santo, na glória de Deus Pai). Encerra com a aclamação Amem.

O concerto prosseguiu com o terceiro andamento, o Credo. É uma iniciação cristã, que na Igreja Católica é marcado pelos sacramentos do Batismo, da Eucaristia e do Crisma. É uma forma de catequese em contínuo que perdurou até ao século V. A versão autorizada de texto litúrgico é a latina que, depois de um longo período em desuso, foi restaurado em 1972.

Sanctus deu corpo ao quarto andamento. A primeira parte deste cântico é uma adaptação de Isaías ao refrão do Anjo Serafim quando este diz que repetir duas vezes a palavra Santo é referir-se a alguém que é santíssimo; quando se repete três vezes essa palavra, eleva-se o adjetivo ao valor máximo. E este hino inicia-se com Sanctus, Sanctus, Sanctus. A segunda parte deste andamento é um texto tirado da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém.

O quinto andamento, Benedictus é, na primeira parte, a canção de agradecimento do profeta Zacarias pelo nascimento do seu filho João Batista. A segunda parte é o discurso de Zacarias ao seu próprio filho, a dizer-lhe que ele deveria tomar parte de tão importante missão no milagre da Redenção, porque ele deveria ser um Profeta e pregar a remissão dos pecados antes da vinda do Sol Nascente. Este hino é judaico na forma, mas cristão no sentimento. Foi introduzido na liturgia católica, no século V, por São Bento.

O último andamento da Missa Brevis a ser ouvido, o Agnus Dei, usualmente é cantado no início do fracionamento do pão eucarístico. Foi introduzido na liturgia da missa católica, no século VII, pelo Papa Sérgio. Foi retirado do texto de João. Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis (Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós).

Extra programa, e como estamos no mês de Maria, em que se comemoram os 100 anos das aparições marianas aos pastorinhos, foi tocado pela banda e cantado por todos, publico incluído, o hino Miraculosa Rainha dos Céus.

Fim apoteótico, com largos minutos com o público de pé a manifestar o seu agrado. Festa bonita que culminou com a oferta de dois ramos de flores aos maestros Nelson Jesus e Paulo Santana por parte de José Cipriano, presidente da Direção da SUMA, entidade que organizou este concerto.

Vitor Grilo foi a voz off que ia informando a assistência sobre o desenrolar do programa do concerto.

Bem no hipocentro do bulício pós-festa, auscultámos algumas reações:

José Cipriano, presidente da Direção da SUMA
Foi um concerto fora do vulgar, fora do habitual programa musical em Alenquer. Creio que pela primeira vez na história de Alenquer se encontraram uma banda e um coro da própria vila. E foi maravilhoso, até porque, neste caso, a igreja estava cheia. A recetividade do público foi muito superior ao que nós pensávamos. Penso, e vou falar nisso com os maestros, que este projeto possa ser apresentado em mais duas ou três igrejas, para que um trabalho de quatro a cinco meses não tenha sido apenas só para um único concerto.

Félix Pedro, presidente da Direção do Grupo Coral Vozes Maduras
Até hoje, talvez tenha sido o melhor concerto que o Grupo Coral Vozes Maduras realizou, tanto a nível do reportório, como da performance do próprio grupo, como até a nível da assistência. Eu gostei imenso. E tenho a perceção que o público também gostou. E faço votos, e um apelo também, para que este tipo de concertos se faça mais vezes, tanto em Alenquer como em todo o concelho.

Paulo Santana, Maestro do Grupo Coral Vozes Maduras
Gostei bastante. Claro que com pessoal amador há sempre uma ou outra falhazinha, principalmente na parte de sincronização coro/banda, ou uma ou outra entrada. Fizemos bastantes ensaios, mas sabemos que precisávamos de mais ainda. O grau de dificuldade é muito elevado, mas foi bem conseguido. Costuma-se dizer que o algodão não engana, e o público reagiu muito bem. Penso que esta experiência é para se repetir. Porque agora a tendência é para ser cada vez melhor.

Nelson Jesus, Maestro da SUMA
A ideia deste concerto já a tinha desde o primeiro momento que entrei na SUMA, porque noutros locais por onde passei, achei que este tipo de programa, de ambiente e de espaço proporcionam este tipo de música que é muito educativo para a parte musical, para além de ser inspirador para o público que acompanha. Quando eu cá cheguei tive a possibilidade de conhecer o Mastro Paulo Santana e o Coro. E então foi só reunir as sinergias para fazer este tipo de programa. A partir daí, como a ideia era fabulosa, o resultado funcionou muito bem, e ainda foi melhor do que eu esperava. Fiquei com a ideia que a receção do público foi fabulosa. Não conhecia o local e adorei a sua acústica. Este concerto tem tudo para que se possa repetir.

Do público: Padre Joaquim Francisco Ludovino, Paróquia de Alenquer
Achei muito bem. Foi um trabalho estupendo e magnifico que nos elevou a todos a Alma, que nos tornou maiores. As palmas havidas manifestaram a grande recetividade que teve nas pessoas.

Do público: Vasco Aguiar Miguel, Enólogo
Assisti a um espetacular concerto, com a banda da SUMA e o Grupo Coral Vozes Maduras, onde sobressairiam a acústica maravilhosa deste templo, mais o profissionalismo e a competência dos músicos, onde realço os solos com que fomos presenteados, algo de maravilhoso que dificilmente esquecerei. O grupo coral esteve ao mais alto nível, simplesmente divinal. Foi uma tarde de cultura, arte e conhecimento, que muito me enriqueceu, e estou muito grato por tudo o que vi e ouvi. Como Alenquerense fiquei orgulhoso e até com um pouco de vaidade.

Do público: António Rodrigues Guapo, Historiador Local
O concerto que hoje ouvimos na Igreja de São Francisco foi uma boa prestação de serviço à cultura concelhia. Infelizmente, não é habitual termos ocasião de assistir a um espetáculo desta qualidade artística e dignidade, e com a perfeição com que foi executado. A banda da SUMA, com a qualidade musical reconhecida, e o grupo coral Vozes Maduras, presente, casaram-se de uma maneira muito perfeita, e tivemos então oportunidade de ver e ouvir, quer nas peças isoladas quer nas peças em conjunto, um espetáculo invulgar e de enorme qualidade, a que também, de alguma maneira, se associou o ambiente, a atenção das pessoas que assistiram e as condições acústicas daquele espaço extraordinário, o que nos leva a pensar que seria desejável que no futuro manifestações desta índole se repetissem.


PROGRAMA COMPLETO DO CONCERTO:
1.ª Parte:
Só Banda (Dirigiu o Maestro Nelson Jesus)
– Ammertand, de Jacob de Hand
– Adágio, de Tomaso Albinoni
– Meditation de Thaís, de Jules Massenet
—- Solista: Dinis Carvalho (Saxofone alto)
– Nessun Dorma, de Giacomo Puccini
—- Solista: Pedro Rodrigo (Bombardino)

Só Grupo Coral (Dirigiu o Maestro Paulo Santana)
– In Monte Oliveti, de Anton Bruckner

Grupo Coral e Banda (Dirigiu o Maestro Nelson Jesus)
– Ave Verum Corpus, de Wolfgang Amadeus Mozart
– Ave Maria, de Franz Schubert

2.ª Parte:
Grupo Coral e Banda (Dirigiu o Maestro Nelson Jesus)
– Missa Brevis, de Jacob de Hann
1 – Kyrie
2 – Gloria
3 – Credo
4 – Sanctus
5 – Benedictus
6 – Agnus Dei

 

Agradecimentos:

Captação de áudio e vídeo: Leopoldo Rodrigues

Fotografias: blog do Grupo Coral Vozes Madura 

 

ALENQUER (Igreja de São Francisco) – 12-maio-2019

Missa Brevis, de Jacob de Hann

Sociedade União Musical Alenquerense e Grupo Coral Vozes Maduras

Hernâni de Lemos Figueiredo
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2019)

Membro do Grupo Coral Vozes Maduras

hernani.figueiredo@sapo.pt

965 523 785

 

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