A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura (i): Uma indústria que, tardiamente, chega a Portugal

A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura (i): Uma indústria que, tardiamente, chega a Portugal

21/01/2019 0 Por hernani

A indústria do papel em Lisboa e na baixa Estremadura (i):
Das suas origens ao séc. xx

Uma indústria que, tardiamente, chega a Portugal

Lisboa e Baixa Estremadura – Localização das principais fábricas: 1 – Alenquer; 2 – Abelheira / S. Julião do Tojal; 3 – Lisboa; 4 – Ribeira ou Rio do Papel / Queluz-Sintra

Com o moinho de Manuel Teixeira, em Alenquer, no séc. XVI, o fabrico do papel chegou, finalmente, à região da Baixa Estremadura, onde ao longo dos séculos seguintes essa actividade se desenvolveria, sobretudo, em torno de duas grandes unidades fabris, a Real Fábrica de Papel de Alenquer, depois Companhia do Papel de Alenquer e a Fábrica do Tojal ou da Abelheira em S. Julião do Tojal.

Ainda na fase das tinas e pilões manuais, ditos à chinesa, ou hidráulicos, em Alenquer, Sintra (Ribeira do Papel), Abelheira (Moinho da Lapa), Coina e em Lisboa – onde desde o início do séc. XIX proliferaram inúmeras manufacturas que, na generalidade, produziam papel pardo ou de embrulho de má qualidade, cartão e papel pintado ou estampado – laboraram pequenas unidades que não lograram ultrapassar a fase manufactureira, alcançando o estatuto de fábrica.

A Modernidade, com a introdução das primeiras máquinas, essa sim passou pela Real Fábrica de Alenquer com a instalação dos cilindros destroçadores de trapo, à holandeza, e pela Abelheira com a montagem e funcionamento da primeira máquina em contínuo que Portugal conheceu. Porém, enquanto a fábrica de Alenquer, após vicissitudes várias, encerraria perto do final da centúria de oitocentos que a vira nascer, a da Abelheira perduraria até finais do século seguinte, acolhendo nos seus vastos pavilhões todas as inovações que a evolução tecnológica trouxera.

Todavia, passado o primeiro quartel do século XX, a indústria do papel e do cartão regressaria a Alenquer com uma nova unidade industrial, a Fábrica de Papel e Cartão da Ota, Ld.ª, erigida em terreno contíguo ao da anterior, então já transformada em moagem, para, também ela encerrar com o cair do milénio.

Para além das já referidas, no séc. XX tão só se regista o aparecimento na região de duas novas fábricas, uma em Oeiras, de expressão média, a Sarmento & Sá e uma outra, ainda de menor dimensão, em S. Julião do Tojal, propriedade de Maria Augusta Quintanilha de Mendonça Fernandes.

Se excepcionarmos a cidade de Lisboa, o ramo papeleiro da nossa indústria não alcançou, quantitativamente, elevada expressão nesta região que elegemos para estudo, mas o que ele aqui teve de percursor em termos de introdução de novas tecnologias, assim como a grande dimensão que algumas das suas fábricas atingiram à época em que laboraram, por certo que o tornaram suficientemente relevante para aqui o trazermos.

Nos tempos que correm, face ao desenvolvimento exponencial das novas tecnologias, não deixa de haver quem se evidencie preconizando o fim do papel. Todavia, esse espreitar pela ‘bola de cristal’ das certezas que a sociedade pós-industrial transmite tem-se revelado falível, pois, à semelhança de uma marca de automóveis japonesa, também ele, o papel, veio do distante oriente para ficar, até mesmo como suporte para produtos tão surpreendentes como écrans de papel ou pilhas do mesmo material, o que, afinal, não nos deverá causar grande admiração se pensarmos que nos finais do séc. XIX, em Barcarena-Oeiras, onde se sediava a Fábrica da Pólvora, já se havia descortinado para o material de que tratamos uma aplicação tão incomum como a do cartão detonante que aí se fabricava.

Vivemos, pois, numa sociedade onde o papel «(…) é hoje um produto de grande consumo, cujo desaparecimento traria, sem dúvida, à vida quotidiana dos homens e à conduta das nações consequências maiores do que o do petróleo»[1]. Aqui chegámos, mas para trás ficou toda uma história de séculos, tantos quantos o papel demorou a percorrer o longo caminho que o trouxe da China e do Japão, onde se fabricava a partir da casca do bambu, à Europa que o reinventou a partir de outros materiais.

É quase consensual que foram os árabes, quando invadiram este continente em que ivemos, que consigo o trouxeram. Em Játiva, perto de Valência, já no séc. XII laborava uma oficina que exportava charta bombycina[2] para países próximos, todavia, a utilização do algodão como matéria-prima terá sido nesses tempos algo episódica, mesmo na Península Ibérica, onde então eram muitas as oficinas que laboravam a partir do trapo, preferencialmente do de linho, o qual, segundo Viterbo, dava ao papel «(…) uma consistência e um aspecto que o faziam revalizar com o pergaminho»[3].

No entanto, a difusão do fabrico do papel pela Europa terá sido algo lenta. Em França assinala-se o seu começo em meados do séc. XIV, na Alemanha em finais desse século, a Itália teria ele chegado um pouco mais cedo, nos finais do séc. XIII, a Fabriano, nome de cidade que se tornaria sinónimo de prestígio para o produto aí manufacturado, mas só no século seguinte Veneza e Génova se tornariam grandes centros papeleiros, dando ao nosso país muitos mestres e oficiais credenciados que às primeiras fábricas portuguesas forneceram gerações de operários papeleiros.

Em Portugal, com algumas interrogações sobre se efectivamente teriam funcionado, dúvidas essas que o estudo desta matéria em tempos mais recentes tem vindo a clarificar, teriam as primeiras moendas desfeito trapo no séc. XV, acentuando-se essa actividade no século seguinte ao longo de uma rota imaginária que de Leiria (1411 e 1441) passou pela Batalha (1514), subiu a Braga (1534), para de novo descer a Fervença-Alcobaça (1537) e finalmente
alcançar Alenquer em 1565.


 

[1] – Maurice Daumas, citado por José Amado Mendes in “Fábrica de Papel do Prado – História e Património Industrial do
Papel: A indústria papeleira no Distrito de Coimbra”, Separata do n.º 16 de Arunce – Revista de Divulgação Cultural, pág. 109.

[2] – Assim se chamava o papel feito a partir do algodão.

[3]– Sousa Viterbo – “Artes Industriaes e Industrias Portuguezas: O Vidro e o Papel”, pág. 71.

TRABALHO COMPLETO

I – Uma indústria que, tardiamente, chega a Portugal

II – O moinho de papel de Manuel Teixeira, na Alenquer quinhentista

III- Esclarecendo o que aconteceu na Ribeira do Papel, em Queluz

IV- Os primeiros tempos da Abelheira

V – Voltando a Alenquer, a fábrica do “Trapeiro” na Requeixada

VI – Da Real Fábrica de Papel de Alenquer a Lisboa e ao seu termo

VII- Ainda a Real Fábrica de Alenquer, a mais moderna ao seu tempo

VIII – Regressando à Abelheira e a Lisboa Moinho da Lapa

IX – A segunda vida da Real Fábrica de Alenquer

X – Alenquer – O último capítulo da vila papeleira

XI – Cronologia de Moinhos, manufacturas e fábricas de papel em Lisboa e na Baixa Estremadura (séc. XVIII/XIX)

XII – Pesquisas e Bibliografia

 

 

@José Leitão Lourenço (2019)
Mestre em História Regional e História Local
lourenco31051947@gmail.com

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