Água, o petróleo do século XXI

Água, o petróleo do século XXI

02/05/2019 0 Por hernani

 

 

Água, o petróleo do século XXI

“As batalhas da água, por um bem comum da Humanidade “ (por Mohamed Larbi Bouguerra, Campo das Letras 2005) é um livro de grande interesse para quem pretende documentar-se quanto ao valor simbólico, cultural, científico, geopolítico, geoestratégico, sanitário, ético e desenvolvimentista da água.

A água é um recurso natural crítico sujeito a múltiplas tensões, desde as políticas às ideológicas. Quando não tratada, ela pode matar. Faz parte das cosmogonias e das religiões mais influentes, onde tem um papel purificador. Fascinou artistas, poetas e pintores, está indelevelmente associada à arquitetura e à beleza das cidades. Continua a ser um enigma científico, a despeito de ser a substância mais comum e mais banal sobre a terra (talvez por ser anormal em todas as suas propriedades físico-químicas). Só gera vida nos seus estados: sólido, líquido e gasoso. Está sempre na moda na vanguarda das investigações. Se é verdade que o hidrogénio pode ser obtido pela eletrólise da água, os fabricantes de automóveis trabalham afincadamente em motores movidos a hidrogénio, com a esperança de lançar no esquecimento o petróleo, a sua poluição e as suas guerras.
A água é também uma questão política, porque é um recurso finito e está distribuída assimetricamente (na Islândia, cada pessoa dispões de 600 mil metros cúbicos de água doce, por ano, no Kuwait cada pessoa contenta-se com 75 metros cúbicos.) A penúria da água vai gerar tensões gravíssimas, e basta pensar na China, que conta com 22% da população total do globo e não tem mais de 8% da água do planeta. Quando se é rico, como a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes, pode pagar-se o caríssimo processo de dessalinização. As chuvas torrenciais do Norte de África são inúteis para a agricultura. Todas as previsões apontam para um novo tipo de conflitos em África por causa da falta de água, isto para já não falar nas tensões permanentes entre a Turquia e a Síria, Jordânia e Israel, a Hungria e a Eslováquia, a Índia e o Bangladesh, o Senegal e a Mauritânia, entre tantos outros….embora o conflito israelo-palestiniano assuma dimensões apocalípticas, sem a sua solução não haverá paz nesta região do Médio Oriente. Como escreve o autor “uma instância internacional, tendo por função julgar as disputas relativas à água, revela-se necessária para preservar a paz no mundo”.
Como recurso finito, a água levanta uma questão grave que é a do consumo sustentável. Enquanto a população mundial triplicou nos últimos 50 anos, as superfícies irrigadas aumentaram 6 vezes e a procura cresceu 7 vezes. Associada a grandes desastres ecológicos (caso do mar do Aral) água está implicada em catástrofes naturais, ao grande negócio da água engarrafada, e às temíveis doenças contagiosas. No dossier do consumo, a água aparece como um factor elementar da coesão, porque é inseparável dos problemas das desigualdades sociais e espaciais. A crise da água não poderá ser iludida mais tempo: dois terços da população mundial viverá daqui a 20 anos em regiões onde haverá penúria de água.
A água é, pois, um dado fundamental da geopolítica e da geoestratégia: é bem público ou bem privado; pode controlar-se a produção agrícola para que não falte a água? Pode o FMI continuar a exigir aos países do Sul a privatização da água? São questões ainda sem resposta pacífica, isto numa altura em que aumenta diariamente o número de pessoas que morrem por falta de água potável e por carência de funcionamento.
A água anda também associada à poluição, ao desenvolvimento sustentável e à Ética. Na fase atual da sociedade de consumo, cresce um mundo de atividades que poluem a água, a começar pela eletrónica. Toda a gente sabe que a Revolução Verde partiu do pressuposto de que a água era um recurso infinito e subestimou o custo das drenagens. Para além de toda a polémica que envolve a construção de barragens, é importante verificar que existem enormes desigualdades na exploração do potencial hidroelétrico, que também tem a ver com o desenvolvimento e a gestão dos recursos.
Há motivos de esperança? Pergunta o autor. Claro que há. Cada vez mais intelectuais, pensadores e decisores políticos consideram a água como um bem comum da Humanidade. Estão-se a dar progressos na redução de custos da dessalinização. As opiniões são cada vez mais convergentes para a promoção de uma sociedade ecónoma em água, ou seja, com gestão transparente, inflexão de modos de vida consumistas, orientadas para a sustentabilidade. Se este otimismo se não concretizar em obras, reacender-se-ão guerras e destruições. Cabe-nos ajudar a escolher bem.

©Mário Beja Santos (2005)
Professor Universitário
Cofundador da UGC, União Geral de Consumidores
in Jornal D’Alenquer, 1 de Maio de 2005, p. 38

 

 

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